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23 de agosto de 2007

Parque da Cidade III

Aproxima-se o final da tarde, a brisa que percorre a cidade refresca-se ainda mais nos campos das sombras que crescem a cada instante. No caminho estreito que separa o parque da cidade agitada surgem pessoas que caminham, e outras que correm, e outras que passeiam nas bicicletas. Vejo-os ao longe por entre os cortes das sebes, como se fossem figuras animadas numa imagem desfragmentada. As cadeiras da esplanada vão sendo ocupadas com o entardecer. Ouço ruídos, conversas distorcidas que o vento levanta dos lugares de onde não deveriam ter saído. Aqui nasceu um novo centro da cidade...
A cidade cresceu, digo-o para mim num pensamento de espanto. A cidade cresceu e de tanto julgar que a conheço não dei conta de que cresceu. Por vezes passo nos lugares e páro admirado pela forma dos edifícios que os meus olhos vão descobrindo. Estão lá desde sempre, muito antes de mim. Mas não lhes dei importância, não os olhei - talvez porque não julgasse importante faze-lo na altura. Agora olho-os como se alguém os tivesse colocado nesses lugares para me confundir.
Conforto os pensamentos nostálgicos num gin tónico - limão q.b. e muito gelo.
À minha volta, espalhados na extensão do Parque, existem pontos pequenos verdes a assinalar o lugar das futuras árvores adultas de amanhã. Não sei se são plátanos. Eu gosto dos plátanos: altos e fortes, de folha larga e áspera do pó. Gosto de plátanos, como aqueles que circundam o museu, e os outros que antes se debruçavam no Jardim do Bacalhau sobre a água que jorrava no largo geométrico e azul. Nessa altura adormecia nas suas sombras. Ali construíra o sonho de um largo de árvores frondosas onde cabia o mundo, todo o mundo...
Espero pelo crepúsculo que tarda em chegar. Vem lento e sem pressa. Vem de azul e fogo no limite da planície. Aguardo por ele. Sorvo o último gole de gin tónico. Fumo um cigarro enquanto me despeço do Parque da Cidade!

22 de agosto de 2007

Parque da Cidade II

Há uns anos atrás as noites gastavam-se até à exaustão das horas tardias nos pequenos largos, praças e jardins do centro da cidade. Mas isso era no tempo em que o centro tinha vida e que as suas ruas estreitas e altas saltitavam como se fossem as artérias do coração da cidade. Nessa altura, ainda me recordo, a cidade, que entretanto se deixava adormecer na periferia, vinha ao centro cumprimentar quem por lá passeava. Hoje essas ruas são apenas estreitas e altas, caiadas na cor branca do silêncio.
Acordo deste sonho nostálgico com o grito libertino de uma criança que utiliza a bicicleta como um objecto de malabarismo urbano. As rãs silenciam o seu coaxar enquanto se perde na distância do caminho misturado com gravilha o som do jovem malabarista urbano. Decido caminhar mais um pouco até à esplanada junto ao lago. A água refresca-nos os pensamentos, deixa-os fluir como nascentes de onde brota o límpido e sagrado elemento da natureza.
Sento-me numa cadeira sob um dos chapéus de palha que cortam o sol na forma de uma moeda e aguardo. Aguardo não sei por quem. Mas sinto que aguardo.
Antigamente esta zona parecia distante da cidade. Vir para estes lado, mesmo que numa bicicleta é uma aventura que preparavamos. Digo aventura porque o nosso espaço era o centro da cidade, junto ao largo do museu, e sair de lá para vir até este ermo era para os aventureiros. Regra geral vinhamos para fazer nada. Sim, para fazer nada. Vinhamos onde já não era cidade. Mas agora os carros trazem-nos com facilidade. A água chama-nos para repousar o olhar...