22 de janeiro de 2009

As tuas palavras

amanhã farei das palavras amor
e se ainda me restarem forças
farei do amor o som das palavras
amanhã farei tudo para que me ouças
rasgarei o céu incendiarei os astros
e se for urgente morrerei a sangue frio
como um amante conveniente
amanhã desenharei poemas faustos
com promessas de amor e um desejo sombrio
farei das palavras amor
e se o ar me exceder farei do amor o som das tuas palavras

15 de janeiro de 2009

Poema Insuficiente à Mãe do meu Filho



Levas no peito, a cada instante, o alimento mais impoluto. Acendes no teu olhar cansado fulgores de esperança. Seguras nas mãos pétalas frescas de confiança. E sobre o teu colo versam os gestos primários de uma criança. E tantas vezes te sinto perdida no meio de tanta coragem. E tantas vezes sou insuficiente para te acudir. E tantas vezes me reconstruo na tua imagem. A natureza fez dos homens impotentes. Incapazes de partilhar o brilho natural do encanto maternal. Rudes e insensíveis crentes. Agitadores do património paternal. Oh, meu amor! Mulher de rosto descansado, de colo reconfortante, corpo duro e apertado, alma vertical onde a vida se prolonga, deixa-me ser como tu, deixa-me ir por onde vais, como vais, na noite que se alonga. Leva-me no encanto do teu olhar, por onde vais. Dá-me o ensejo dos pressentimentos; usa-me como não se usam os pais. Eu vou: por ti, por ele, por mim… pelos teus merecimentos.

13 de janeiro de 2009

Palavras. Promessas.

Palavras.
Palavras.
Palavras.
E gestos ornamentados com palavras.
Felicidade ou tristeza:
Palavras.
Sempre as palavras.
Palavras incertas.
Palavras concerteza!
Verbo indiscretos,
Promessas. Promessas.

7 de janeiro de 2009

A Reinventar Mariana Alcoforado

Que ingenuidade a minha julgar-te capaz de amar. Oh, que perdição! Que ousadia pensar em desmanchar a dureza dos teus sentimentos; a indiferença dos teus gestos; a amargura de uma distancia que teimas em sustentar. Noutros tempos acreditei, com mil paixões, em cada palavra que pronunciavas. No começo, quando a ingenuidade se confundia com o ardor do desejo por ti, desenhava no céu estrelado o teu nome; escrevia-o com as estrelas, repetidamente. Ah, que ruína a minha! Quanta desgraça me abandonou às horas de solidão e de sofrimento? Quanta amargura me sustenta nas noites frias de desprezo e de indiferença? Palavras sobre palavras, dizes! E os sentimentos não os conheces, porque estranhas os afectos, sobretudo os meus, que recusas severamente. Oh que ingenuidade! Que perdição! Tanto arrependimento me contradiz na vontade de te amar ainda mais! Que traição!...

Jorge Barnabé

1 de janeiro de 2009

Primeiras horas

as primeiras horas
surgem como o brotar de uma flor:
lentas e frescas como o beijo com que me devoras,
húmidas, como o desejo excitante do amor;
loucas, desvairadas primeiras horas
perfumadas com fina monocasta;
ternas, meigas primeiras horas
em que tudo é tudo e tudo já não basta...

17 de dezembro de 2008

O mundo nos braços

tens o perfume dos campos
e os olhos de azul primavera
que iluminam as planícies

cabe-me o mundo nos braços
renovando novas esperanças
- os rios apertados e os ribeiros lassos,
as flores dos campos e as aves mansas

1 de dezembro de 2008

Carta antecipada ao meu filho recém-nascido

O teu corpo adormece nos meus braços, na rotina diária de um afago. O teu olhar cerra-se intermitente e cansado de uma busca incessante pelas novidades da vida: as cores brancas das paredes, os tons quentes de um quadro na sala, ou até a intensidade de um candeeiro. O teu sorriso ainda ténue e tímido esboça-se cuidadoso como se fosse o traço de um pincel que o colorisse para a eternidade. Lá fora os dias frios contornam a casa que nos aconchega e a rua cobre-se num manto amarelo de folhas secas onde os passos de uma cidade caminham frígidos. Ignoras as atrocidades de uma realidade sangrenta que percorre os canais de televisão. Desconheces os ruidosos silêncios que condicionam a vida, tal como querem que seja. Vives no teu mundo de inocências, de uma absoluta ignorância que ironicamente te protege. Não sabes nem desejas saber as razões dos outros. Basta-te o esforço para te fazeres compreender, para sinalizar a vontade de comer escolhes um choro e para te queixares de uma dor outro ainda mais acentuado e regular. E depois os teus olhos abrem-se claros como o céu primaveril. Lá fora, para além dos dias frios e das ruas encobertas de folhas secas, o mundo decompõe-se entre bons e maus, entre justiceiros e terroristas. Enquanto muitos se definham numa crise financeira, outros se vêm encurralados num gueto cada vez mais vasto de sangue e de miséria. E embora ainda não seja esta realidade atendível à tua existência, a verdade mais ou menos absoluta é que um dia te saberei confrontado com ela. E imagino a tua desilusão, a frustração a percorrer-te o olhar cândido de uma criança que merece o melhor da vida. A ti como todas as outras crianças em que penso agora, indefesas, abandonadas no direito a sonhar e a ter uma vida melhor. Antevejo as tuas mãos já grandes serem insuficientes para cuidar tanta amargura, e o teu sorriso já definido e natural a esmorecer-se nas contrariedades de um mundo cada vez mais injusto e selectivo. Um destes dias, quando me compreenderes, quero falar-te da utopia: do direito a desejar e a sonhar livremente, e da coragem dos homens que vencem impolutos num mundo imoral. Por agora, acolho-te no meu colo como se tratasse de uma fortaleza.

13 de novembro de 2008

Meiga Madrugada

Ainda nos abraçamos nas noites mansas...
Enquanto o arvoredo se cobre na bruma fria,
O silêncio reconquista a rotina da cidade
Num Outono lento e demorado.
Somos o aconchego um do outro
E mais um olhar novato, revigorado.
Ainda nos confortamos com as palavras
E os desejos infinitos de felicidade;
Somos também o alento da meiga madrugada
Que nos embala. Que nos afaga.

29 de outubro de 2008

Primeiras palavras

a noite fria. o engano da espera. o corpo impaciente. a memória inteira de uma vida no cabo do meu olhar. um som agudo. um choro. e nos meus braços senti caber o mundo. um mundo inteiro. um olhar timido. e num instante os nossos corpos se encontraram. enlaçados na vida um do outro. para sempre.

27 de outubro de 2008

CHÁ E TORRADAS: Parte 2

A rotina dos dias cumpre o objectivo de estimular o juízo. Acordo nas manhãs que confundo com as da primavera e deixo entrar a luz limpa em casa. Convido-a a entrar como se convida um amigo e deixo-a percorrer as divisões como se fosse da família. Quero pelas manhãs o abraço da natureza, o meu corpo entregue à vida sadia e a minha alma em harmonia com os dias alegres.

Mantenho o vício mortal do tabaco. Cigarros após cigarros. E o primeiro logo pela manhã enquanto espero que a luz solar entre. São os vícios que nos vergam. Que nos manuseiam como fracas figuras. E no tabaco sou tão fraco como alguns de vós serão noutros defeitos.

Penso nos outros. Penso em vocês que me dizem qualquer coisa, como se o modo me melhorasse o conteúdo. Imagino-me muitas vezes como me desejo: forte e impoluto. E nesses desejos supero-me por vezes, derroto-me noutras tantas. Como Ser falível e que se verga na hipocrisia que detesta. E é no fingimento que nos duplicamos, como um espelho que nos repete a figura.

Os passos aprendi que fazem o caminho. Um de cada vez. E os olhos bem abertos e atentos. E o corpo em posição de ataque. Com a leveza das mãos preparo-me para o que vem – já não as ambiciono delicadas, entendo a rugosa pele que as cobre. Escolhi tardiamente construir o caminho sereno da vida. Talvez porque só agora o extremo do meu olhar o permite. E bem sei que num futuro mais além corrigirei as opções de hoje. É por isso que é preferível serem os passos a traçar o caminho que o caminho a desafiar os passos. Aprendi-o com a dureza das perdas de uma vida, errante como um cavaleiro nocturno vagueando nas brumas.

Não tenho o direito de menosprezar a vida. Aprendi, desde muito pequeno, a respeitar e cuidar desse valor sublime. Moldaram-me na forma de princípios e valores que são muitas vezes os meus maiores adversários. Que confundem os outros e me castram. Que me fazem sentir hipócrita quando os ignoro.

Sou um ser reflexivo: penso e repenso, e gosto da clarificação das coisas. Não construo – ou pretendo não construir – situações sombrias, pelo contrário. Penso no lugar dos outros antes de decidir sobre eles, penso na razoabilidade das coisas, reflicto sobre o espaço temporal em que tudo se desenvolve… e decido! E antes uma má decisão que decisão nenhuma, já me dizia o meu pai…

Se fizer as contas à vida é fácil somar mais dias de felicidade que dias de infelicidade. Mas se pesar uma coisa e outra obtenho um resultado amargo. Dizem que nos recordamos com maior facilidade das coisas más. É verdade. São essas que nos pesam a memória – pelo insucesso, pela inoportunidade, pelo infortúnio, pelas consequências – como se fossem uma âncora que de tempos a tempos nos fundeasse em alto mar.

Ajusto-me nos finais de tarde, como todas as coisas se ajustam a seu tempo. Sigo o instinto animal do recolhimento e deixo-me ficar numa casa que me enlaça e me surpreende com coisas novas a cada dia. Dou por mim fixado no sorriso ingénuo e distraído de quem amo. E é o suficiente para querer continuar a viver. E há meses que me entreguei ao sentimento insuspeito de ver uma barriga materna a crescer. E parte de mim revigora-se noutra vida. Temo por ela. Temo pela fragilidade dos dias… e isso, incompreensivelmente, faz-me mais forte, mais determinado, mais ousado, menos caprichoso. A cada dia perco o orgulho fútil. E talvez me faça melhor no tempo certo.

Continua…