Espero que a noite morra
Até que no alvorecer
O teu olhar me percorra
E as tuas mãos me apertem
Por querer
Espero pelo tempo que passa
Até que os teus lábios levem os meus
E se humedeçam por graça
Espreito numa lasca de luz
Enquanto rodeias o teu corpo
Sabendo que me seduz
Tacteio o negro da escuridão
Onde te procuro
A madrugada inteira
Na palma da mão
Onde te seguro
28 de março de 2020
O que é teu
É teu o silêncio
é tua a escuridão
É de ti o vazio
Que desce a rua num rodopio
É tao tua a inquietação
A palavra secreta
Que ninguém quer saber
A mordaça no plaino verde
Que te quer a morrer
É teu o pecado
O lugar em desassossego
A paisagem que passa ao lado
A tua figura
A tremer de medo
É teu o outono derradeiro
Onde se acinzentam os pensamentos
E morre a esperança
É tudo teu
Até ao ponto da incerteza
Até à brancura
Que carrega a leveza
É tambeu teu
O largo de lamentos
É por ti
Que vem o silvar dos sonhos
É tudo teu
Quando nada te dão
é tua a escuridão
É de ti o vazio
Que desce a rua num rodopio
É tao tua a inquietação
A palavra secreta
Que ninguém quer saber
A mordaça no plaino verde
Que te quer a morrer
É teu o pecado
O lugar em desassossego
A paisagem que passa ao lado
A tua figura
A tremer de medo
É teu o outono derradeiro
Onde se acinzentam os pensamentos
E morre a esperança
É tudo teu
Até ao ponto da incerteza
Até à brancura
Que carrega a leveza
É tambeu teu
O largo de lamentos
É por ti
Que vem o silvar dos sonhos
É tudo teu
Quando nada te dão
Cidade
Em quase tudo o teu silêncio
O vazio em toda a parte
A noite como o dia
Em desespero
O vazio em toda a parte
A noite como o dia
Em desespero
23 de março de 2020
ESTA PRIMAVERA
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
Os beijos mudos e as mãos em brasa
A vida resguardada na espera
ansiosa pelo desafogo
A natureza fechada em casa
com os campos ao longe
e as praças em multidões de sossego
As árvores fingindo ser de bronze
e o sofrimento querendo aconchego
A chama viva no anoitecer
O silêncio exasperante
na infinita espera
pela incerteza do saber
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
E o mundo fica quieto
e inquietante
à sua espera
é feita de fogo
Os beijos mudos e as mãos em brasa
A vida resguardada na espera
ansiosa pelo desafogo
A natureza fechada em casa
com os campos ao longe
e as praças em multidões de sossego
As árvores fingindo ser de bronze
e o sofrimento querendo aconchego
A chama viva no anoitecer
O silêncio exasperante
na infinita espera
pela incerteza do saber
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
E o mundo fica quieto
e inquietante
à sua espera
17 de agosto de 2013
POEMA NOTURNO AO MEU AMOR
ao sul a noite alonga-se como a planície. o silêncio aperta ainda mais a escuridão onde repousam as papoilas. e tu, triste no rosto e sofrida no coração, ignoras aquilo que a natureza já sabe: há sempre o alvorecer, um novo dia, um recomeço que se repete e faz esquecer as mágoas noturnas. também eu sei disso agora. quando me apercebo dos diferentes tons que encantam o céu estrelado. como me encanta desejar-te eternamente. e aguardo que amanheça. que tudo se reconstrua. e que ergas novamente o teu sorriso. que o teu corpo siga o exemplo das papoilas. ainda que a noite não seja sempre escuridão desejo-te o dia inteiro, claro e fresco: a manhã, a tarde e o crepúsculo. um outro crepúsculo. a cair sobre a planície como se fosse um manto de paz.
30 de julho de 2013
UTOPIA
Há tanto tempo que não ouço falar de utopias, nem de horizontes! É como se a vida vencesse as ilusões da própria natureza humana. Aos poucos desfazemo-nos do romantismo, deixamos de acreditar nas transformações, matamos o desejo de sonhar. Há tanto tempo que não alimento utopias, ou desejos, ou horizontes onde caibam todas as vontades por cumprir… e não o fazer é como desanimar o pensamento, tirar-lhe espaço e tempo numa vida ainda por vir! Escuto em redor os silêncios dos outros que, como eu, esgotaram as palavras mais sublimes e fantasiosas, adicionando-nos numa rotina de desesperança, salgada e desigual. Onde tudo se consome com desconfiança. E deveria ser agora, neste instante, que a utopia fizesse renascer os homens e as mulheres, com novo alento e esperança! Bastaria a utopia…
3 de julho de 2013
O POEMA E A INEXISTÊNCIA
Quase nada existe. Olho ao tempo que passou e percebo que quase nada existe. Os lugares que antes se enchiam com a esperança do amor, agora, estão mortiços, sem alma. As ruas parecem todas iguais. E até o rio perdeu frescura e luz. Nem os bancos do jardim resistiram à desesperança. E também a poesia mudou. Mudaram-lhe as palavras e os sentimentos. Transformaram-na na enigmática síntese dos sofrimentos. No outro dia, quando passeava ao nosso encontro, perdi-me na multidão onde antes nos enlaçavamos. Apercebi-me do desacerto. Senti a pele mudada e os passos inseguros, desalinhados. Não reconheci os rostos das pessoas, nem as fachadas dos casarios ao centro. Tudo mudou. Até o céu, que antes me alimentava o olhar (quando não estavas) mudou! Está diferente. Já nada existe como antigamente. O tempo pregou-me a partida, iludiu-me. Ou melhor, iludi-me. Fantasiei. Mas isso não é o mais importante. O que realmente importa é o que se perde e não se recupera. É o estado de inexistência que amedronta o poeta. Que faz esmorecer o poema. São as palavras que não se voltam a escutar. São as mãos que não se voltam a enlaçar. São os beijos que não se voltam a dar. É a voz que se perde num lugar etéreo. Sem poema. É a inexistência de ti na minha vida!
18 de novembro de 2012
PORTUGAL
nem voz,
nem pensamento.
nem parte de nós.
apenas desalento.
nem pensamento.
nem parte de nós.
apenas desalento.
6 de novembro de 2012
TEMPO...
Se não houver amanhã, nem madrugadas nem céu adormecido, tão pouco horas passadas ou perfume de jasmim, é porque o tempo, desiludido, chegou ao fim. Se não existir fôlego, nem fé nem desejo, ou sequer o aroma dos trigais, é porque o tempo de um beijo não volta mais...
25 de outubro de 2012
DOIS CORPOS
Entre nós
já nada mais existe
nem o espaço entre dois corpos
tão só a longínqua esperança
o desamor que resiste
e muralhas de silêncio
sem mais nada
já nada mais existe
nem o espaço entre dois corpos
tão só a longínqua esperança
o desamor que resiste
e muralhas de silêncio
sem mais nada
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