O amor na mão
Desapertando o desgosto
A cálida brancura no teu rosto
Enquanto se faz tarde no entardecer
A sombra chinesa do candeeiro
A luz pronta a morrer
Que entretanto chega a noite em gritos
Nessa figura do desespero
A solidão
A parede alva onde se criam os mitos
O amor desgosto na tua mão
E o desapego do lado oposto
28 de março de 2020
Beja
Era no teu peito
Que morriamos todos os dias
No cansaço infantil da esperança
Era no teu peito
Que corriamos ao centro da cidade
Que nos levava como crianças
Eram em ti
As longas noites estivais
As promessas que te falhamos
As andorinhas
Barulhentas nos beirais
As ruas estreitas e altas
No bradar dos nossos pais
Que morriamos todos os dias
No cansaço infantil da esperança
Era no teu peito
Que corriamos ao centro da cidade
Que nos levava como crianças
Eram em ti
As longas noites estivais
As promessas que te falhamos
As andorinhas
Barulhentas nos beirais
As ruas estreitas e altas
No bradar dos nossos pais
Um segundo
Um segundo
Outro segundo
O tempo todo
Numa roda de ponteiros
Um poema à espera que regresses
A luz ténue rogando preces
Que sem ti
O tempo foge do mundo
Outro segundo
O tempo todo
Numa roda de ponteiros
Um poema à espera que regresses
A luz ténue rogando preces
Que sem ti
O tempo foge do mundo
A espera
Espero que a noite morra
Até que no alvorecer
O teu olhar me percorra
E as tuas mãos me apertem
Por querer
Espero pelo tempo que passa
Até que os teus lábios levem os meus
E se humedeçam por graça
Espreito numa lasca de luz
Enquanto rodeias o teu corpo
Sabendo que me seduz
Tacteio o negro da escuridão
Onde te procuro
A madrugada inteira
Na palma da mão
Onde te seguro
Até que no alvorecer
O teu olhar me percorra
E as tuas mãos me apertem
Por querer
Espero pelo tempo que passa
Até que os teus lábios levem os meus
E se humedeçam por graça
Espreito numa lasca de luz
Enquanto rodeias o teu corpo
Sabendo que me seduz
Tacteio o negro da escuridão
Onde te procuro
A madrugada inteira
Na palma da mão
Onde te seguro
O que é teu
É teu o silêncio
é tua a escuridão
É de ti o vazio
Que desce a rua num rodopio
É tao tua a inquietação
A palavra secreta
Que ninguém quer saber
A mordaça no plaino verde
Que te quer a morrer
É teu o pecado
O lugar em desassossego
A paisagem que passa ao lado
A tua figura
A tremer de medo
É teu o outono derradeiro
Onde se acinzentam os pensamentos
E morre a esperança
É tudo teu
Até ao ponto da incerteza
Até à brancura
Que carrega a leveza
É tambeu teu
O largo de lamentos
É por ti
Que vem o silvar dos sonhos
É tudo teu
Quando nada te dão
é tua a escuridão
É de ti o vazio
Que desce a rua num rodopio
É tao tua a inquietação
A palavra secreta
Que ninguém quer saber
A mordaça no plaino verde
Que te quer a morrer
É teu o pecado
O lugar em desassossego
A paisagem que passa ao lado
A tua figura
A tremer de medo
É teu o outono derradeiro
Onde se acinzentam os pensamentos
E morre a esperança
É tudo teu
Até ao ponto da incerteza
Até à brancura
Que carrega a leveza
É tambeu teu
O largo de lamentos
É por ti
Que vem o silvar dos sonhos
É tudo teu
Quando nada te dão
Cidade
Em quase tudo o teu silêncio
O vazio em toda a parte
A noite como o dia
Em desespero
O vazio em toda a parte
A noite como o dia
Em desespero
23 de março de 2020
ESTA PRIMAVERA
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
Os beijos mudos e as mãos em brasa
A vida resguardada na espera
ansiosa pelo desafogo
A natureza fechada em casa
com os campos ao longe
e as praças em multidões de sossego
As árvores fingindo ser de bronze
e o sofrimento querendo aconchego
A chama viva no anoitecer
O silêncio exasperante
na infinita espera
pela incerteza do saber
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
E o mundo fica quieto
e inquietante
à sua espera
é feita de fogo
Os beijos mudos e as mãos em brasa
A vida resguardada na espera
ansiosa pelo desafogo
A natureza fechada em casa
com os campos ao longe
e as praças em multidões de sossego
As árvores fingindo ser de bronze
e o sofrimento querendo aconchego
A chama viva no anoitecer
O silêncio exasperante
na infinita espera
pela incerteza do saber
Parece que esta Primavera
é feita de fogo
E o mundo fica quieto
e inquietante
à sua espera
17 de agosto de 2013
POEMA NOTURNO AO MEU AMOR
ao sul a noite alonga-se como a planície. o silêncio aperta ainda mais a escuridão onde repousam as papoilas. e tu, triste no rosto e sofrida no coração, ignoras aquilo que a natureza já sabe: há sempre o alvorecer, um novo dia, um recomeço que se repete e faz esquecer as mágoas noturnas. também eu sei disso agora. quando me apercebo dos diferentes tons que encantam o céu estrelado. como me encanta desejar-te eternamente. e aguardo que amanheça. que tudo se reconstrua. e que ergas novamente o teu sorriso. que o teu corpo siga o exemplo das papoilas. ainda que a noite não seja sempre escuridão desejo-te o dia inteiro, claro e fresco: a manhã, a tarde e o crepúsculo. um outro crepúsculo. a cair sobre a planície como se fosse um manto de paz.
30 de julho de 2013
UTOPIA
Há tanto tempo que não ouço falar de utopias, nem de horizontes! É como se a vida vencesse as ilusões da própria natureza humana. Aos poucos desfazemo-nos do romantismo, deixamos de acreditar nas transformações, matamos o desejo de sonhar. Há tanto tempo que não alimento utopias, ou desejos, ou horizontes onde caibam todas as vontades por cumprir… e não o fazer é como desanimar o pensamento, tirar-lhe espaço e tempo numa vida ainda por vir! Escuto em redor os silêncios dos outros que, como eu, esgotaram as palavras mais sublimes e fantasiosas, adicionando-nos numa rotina de desesperança, salgada e desigual. Onde tudo se consome com desconfiança. E deveria ser agora, neste instante, que a utopia fizesse renascer os homens e as mulheres, com novo alento e esperança! Bastaria a utopia…
3 de julho de 2013
O POEMA E A INEXISTÊNCIA
Quase nada existe. Olho ao tempo que passou e percebo que quase nada existe. Os lugares que antes se enchiam com a esperança do amor, agora, estão mortiços, sem alma. As ruas parecem todas iguais. E até o rio perdeu frescura e luz. Nem os bancos do jardim resistiram à desesperança. E também a poesia mudou. Mudaram-lhe as palavras e os sentimentos. Transformaram-na na enigmática síntese dos sofrimentos. No outro dia, quando passeava ao nosso encontro, perdi-me na multidão onde antes nos enlaçavamos. Apercebi-me do desacerto. Senti a pele mudada e os passos inseguros, desalinhados. Não reconheci os rostos das pessoas, nem as fachadas dos casarios ao centro. Tudo mudou. Até o céu, que antes me alimentava o olhar (quando não estavas) mudou! Está diferente. Já nada existe como antigamente. O tempo pregou-me a partida, iludiu-me. Ou melhor, iludi-me. Fantasiei. Mas isso não é o mais importante. O que realmente importa é o que se perde e não se recupera. É o estado de inexistência que amedronta o poeta. Que faz esmorecer o poema. São as palavras que não se voltam a escutar. São as mãos que não se voltam a enlaçar. São os beijos que não se voltam a dar. É a voz que se perde num lugar etéreo. Sem poema. É a inexistência de ti na minha vida!
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