tenho a amargura funda dos dias
os dias que me parecem mais longos
enquanto o tempo me percorre a vida
a amargura leva-me às florestas vazias
onde me confundo
com a húmida caruma que cobre o chão
quando as piso e me afundo
5 de setembro de 2007
4 de setembro de 2007
Reflexo
ficam-te sempre os restos
as sobras das horas que passas no ruído da solidão
para ti ficam as paredes húmidas e bolorentas
que cobrem o branco gasto por palavras sedentas
dão-te apenas o minimo do que queres
a irrazoável insatisfação
para ti ficam as horas de desespero
que se saciam com um olhar de ilusão
para ti fica tudo
até que o tudo se esgote
na obscuridade da paixão
as sobras das horas que passas no ruído da solidão
para ti ficam as paredes húmidas e bolorentas
que cobrem o branco gasto por palavras sedentas
dão-te apenas o minimo do que queres
a irrazoável insatisfação
para ti ficam as horas de desespero
que se saciam com um olhar de ilusão
para ti fica tudo
até que o tudo se esgote
na obscuridade da paixão
Espera
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade
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21ª edição,
As mãos e os frutos,
FEA
3 de setembro de 2007
Poeta sem ti
estás cada vez mais longe
cada vez mais distante
afastas-te como os dias do passado
não te quero como uma breve lembrança
tão pouco te desejo sem ser amado
e em ti reside ainda a esperança
de um amor doce e inacabado
mas sinto-te cada vez mais longe
cada vez mais distante
silenciaste a voz que desejo ouvir
rasuraste as palavras que quero sentir
e afastas-te deixando-me poeta errante
e de que servem agora as palavras?
ou as imagens que captei para te ver?
de que serve um poeta sem ti
vazio oco de não te ter?
cada vez mais distante
afastas-te como os dias do passado
não te quero como uma breve lembrança
tão pouco te desejo sem ser amado
e em ti reside ainda a esperança
de um amor doce e inacabado
mas sinto-te cada vez mais longe
cada vez mais distante
silenciaste a voz que desejo ouvir
rasuraste as palavras que quero sentir
e afastas-te deixando-me poeta errante
e de que servem agora as palavras?
ou as imagens que captei para te ver?
de que serve um poeta sem ti
vazio oco de não te ter?
Tu
restas-me tu nesta tarde amarga
de palavras desencontradas e vãs
desejo tanto um abraço teu
- daqueles que me erguiam pelas manhãs
de palavras desencontradas e vãs
desejo tanto um abraço teu
- daqueles que me erguiam pelas manhãs
2 de setembro de 2007
ESTRANHA FORMA DE VIDA missão cumprida
Como prometido regresso ao romance policial de que vos falei em Julho: ESTRANHA FORMA DE VIDA, de Carlos Ademar, Oficina do Livro. 2007.
A viagem faz-se numa leitura fácil e entendível, apesar de se perceber o conhecimento técnico do autor, que nos segura às páginas com os cheiros desconhecidos (para a maioria) das situações mais crueis da natureza humana e uma narração coerente que nos dá, a todo o instante, a sensação de dominarmos o desenrolar dos acontecimentos... até ao fim, porque no fim o autor brinda-nos com a realidade. Agita-nos a consciência!
Conheceremos a sociedade em que vivemos? Será Portugal o país dos brandos costumes, pacificado? Ou será Portugal, como qualquer outro país, uma sociedade dividida e condicionada por uma realidade paralela que desconhecemos?
Carlos Ademar narra neste romance uma história em torno de um simples homicidio, como muitos outros que lemos quase diariamente nos jornais mais sensacionalistas. Mas indo ao fundo das coisas, numa investigação policial perspicaz mas insuficiente, o autor dá-nos a conhecer um mundo obscuro e sujo que nos condiciona ao nível das instituições de investigação e de justiça, dos meios económicos e políticos. Nem sempre a realidade é o que nos parece estar à frente dos olhos...
Empolgante, intenso, coerente e real. ESTRANHA FORMA DE VIDA leva-nos ao mundo da corrupção e da alta criminalidade em Portugal, muito além de outras obras que enchem prateleiras e esgotam edições mediatizadas. Neste romance existe a percepção da realidade. Uma realidade que não está muito distante de nós!
Longe de tudo
Passei os dias longe das ruas e dos rostos cansados de mim, talvez cansados de mim. Estive onde não me procurariam, na companhia de olhos renovados e de sorrisos leves, que não esforçados. Fui pelas ruas ingremes de uma terra que não é a minha, sentei-me em esplanadas de cores diferentes. Ouvi linguagens distintas, sem sotaque pesado e arrastado. Percorri a noite até à madrugada, até ao primeiro instante de luz solar. Adormeci na página de um romance que me acompanha para onde quer que vá. De que não sou capaz de fugir, mesmo quando corro desesperadamente na direcção oposta.
Senti as suas mãos no meu rosto acariciando-o suavemente. Recebi o seu beijo nos lábios secos. Abriu-me os olhos. E num abraço forte ensinou-me a viver outro dia longe de si...
Perder!?
Por vezes assalta-me o tormento de uma ideia incerta:
Podemos perder tudo o que nos rodeia, muitas dessas coisas conseguiremos recuperá-las de uma ou outra forma; e provavelmente mais tarde não nos interessa recuperar outras. Mas o tempo jamais o recuperamos; o tempo que se gasta na indecisão; o tempo que se perde nos fúteis orgulhos; o tempo que nos fez felizes; o tempo passa e não regressa mais. É irrecuperável...
Lamento o tempo que perdemos.
Uma Voz
és de todos os sorrisos o que me desperta
nas manhãs profundas de solidão incerta
a tua voz emerge no meu mundo
como se de um guião se tratasse
iluminando o denso e negro fundo
nas manhãs profundas de solidão incerta
a tua voz emerge no meu mundo
como se de um guião se tratasse
iluminando o denso e negro fundo
1 de setembro de 2007
De nós
De nós parte o sentido fino do amor. De nós para o mundo inteiro. De nós para nós. E no sentido que o amor caminha existe sempre a tua imagem. O teu cheiro, o suave e doce aroma do teu corpo. As tuas mãos serenas. Os teus passos elegantes desfilando nas ruas quentes da minha cidade. E os teus olhos, negros e recortados, de brilho luzente.
De nós parte o sentido exclusivo do amor. Entre nós. Nos instantes densos que partilhamos com beijos frescos e abraços feitos de sentir. De nós saberá o mundo...
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