22 de fevereiro de 2008

Beijo

Aguardava por si como quem aguarda o suspiro final. Em desespero, entre desalentos cultivou-se marginal. Percorreu as ruas apinhadas. Vagueou entre mesas de café. Acomodou-se no centro de um largo acompanhado por um pensamento: ela. Aguardava. Aguardava na espera longa de a ver. De a ter junto a si. E desejou mil coisas. E sentiu mil desejos. E fechou os olhos na esperança de um beijo e de um abraço. E desejou ouvir as palavras como ecos das suas. E desejou o seu suspiro aliviado a desfazer-se sobre si. Aguardou como se esperasse uma vida inteira.
Surgiu estranha. Não esperava outra coisa. Sentiu o seu rosto abatido. O seu olhar esgotado. Tremeu porque julgou que por si o seu olhar já não brilhasse. Reencontraram-se como estranhos. Sem abraço. Sem beijos. Circunstancialmente, pareceu-lhe de imediato. Partiram para a conversa. Outra vez as palavras, de novo as frases feitas e os conceitos apertados. As mãos expostas longe um do outro. Os olhares iniciais fugidios e covardes de os quererem encontrar. E o seu corpo desejando o dela. E o seu ser inclinando-se sobre ela. E ele frágil e temeroso. A ansiedade nele. Um nó no estomago persegue-o na sua ausência. Parte de si - talvez a mais pura e bela - despe-o de cada vez que ela se afasta.
Longos e fundos minutos passaram. Longos e profundos instantes percorreram o seu corpo. E as palavras rudes e o desalento da esperança vestiram-lhe a pele interior. E ao fundo prédios altos como muralhas. E nuvens densas como mordaças. E de si um olhar frio e descomprometido. E nem mais palavras. Nem mais desculpas. E uma mão rompe o silêncio da amargura. E um gesto crescente constrói um beijo. O mais doce e fresco, o mais simples e desejado beijo.

18 de fevereiro de 2008

Chuva

Lá fora a chuva escorre pelas telhas improvisadas e o meu corpo resguarda-se entre as paredes irregulares de uma casa estranha. Escuto a tua voz e isso é o suficiente para que as palavras me invadam o espírito. E porque hoje chove como se fosse um poema dedico-me aos teus olhos como se fosse um poeta.

Ainda temos um do outro

ainda temos a chuva forte para nos refrescar
e as ruas alagadas como lágrimas de raiva
temos entre nós e o horizonte as searas férteis e verdes
e os caminhos ornamentados de flores
e tudo o que temos é mais muito mais que nos separa
somos os oceanos a transbordar
e os céus carregados por sete cores
ainda temos um do outro a esperança
e as árvores altas e densas para repousar
e somos um do outro como lembrança

O caminho dos outros

O fumo do cigarro subia em espiral pelo céu misturando-se com a névoa cinza da manhã. A seus pés um lago raso com a forma geométrica de um rectangulo em jeito de fronteira entre a cidade e os campos. O vento levante agitava as jovens árvores que circundam o espaço enquanto os patos se resguardam sob um pontão improvisado. Em cada segundo o tempo queima esperança de um raio de sol e em cada instante se adensa a neblina cobrindo um olhar que já nada vê. Cruza as pernas desafiando a resistência sobre o tempo. Desafia-se a si próprio como se fosse vento ainda mais forte. Seguem-se momentos lentos de silêncio. Aguarda pelo fim do cigarro querendo afirmar uma convicção. De que servem as coisas banais se não lhes dermos alguma importância? Vai pelos seus próprios pés em passos lentos e fundos em direcção à queda de água. Conta os passos. Ouve-se a si próprio. Fala de si para si em voz alta. As mãos trémulas separam-se do corpo bruto e nú. Trepa o corrimão de segurança. E empoleirado mergulha de cabeça na água gelada. Guarda para si a respiração e segue o caminho dos peixes. E segue o caminho dos peixes...

8 de fevereiro de 2008

Questão irresolúvel

Que ousadia. Que pretensão a de desejar o que não posso ter.
Que incoerência. Tanta contradição querer tanto quando tanto é sempre demasiado.

E no entanto, quem amaria se ao seu amor não quisesse tanto?

Poema sobre Poema

Seguia depois de ti as pégadas que deixavas no areal e nas tuas costas ia-se afastando o mar revolto que estendia um tapete branco de espuma até ao horizonte. Nessa tarde que não era tarde nem noite, que não tinha cor nem cheiro, apercebi-me da tua ausência. Fria e ventosa como o inverno que me obriga ao agasalho estranho. Fixei-me nas pégadas que o salgado mar queimava até à inexistência de vida. Humedeceram-se-me os olhos contemplando o espaço vazio que criavas entre mim e o resto do mundo. Senti a fúria do engano. Exasperei. Morri no instante em que te julguei nunca mais de mim.
Acontecem outras coisas quando estamos longe. Não me reconheço. Não sei de mim nem quero saber dos outros. Não procuro senão uma figura dissimulada. Não quero senão o que tens para me dar. Seguiria, sempre que me pedisses, o rasto que deixas. Seguiria, sempre que o quisesses, o cheiro dos campos onde as flores desenham o teu corpo.

30 de janeiro de 2008

Hoje queria para ti...

Queria tanto levar-te o sol embrulhado em pétalas de rosa e estende-lo na tua casa com o azul fresco do céu como companhia. Queria tanto prometer-te os impossíveis todos e alcança-los num suspiro fundo para os entregar na boca doce de um beijo...

De hoje para amanhã

Aconchego-me no silêncio da noite onde os ruídos dos meus pensamentos tomam a tua forma bela. Uma luz branca encosta-se no parapeito alto da minha janela e sussurra-me as palavras que anseio dizer. Rompe-se o silêncio da rua quando a saudade começa a crescer e de novo escuto os conselhos da lua que me levam onde o nosso amor quiser.
Já não serei poeta quando a manhã surgir, serei todos os teus gestos e cada razão para te fazer sorrir. Serei apaixonadamente o profeta que te amará até o céu cair. Já não serei uma máscara de palavras que se recola em frases soltas e sucintas, serei um destino inteiro, de uma vida inteira junto a ti.

29 de janeiro de 2008

A fragilidade dos dias

temo a fragilidade dos dias
do tempo que passa sem regresso
das flores que não brotam na primavera
das horas longas em que não te pertenço

24 de janeiro de 2008

Ainda ontem

Ainda ontem me segurava com brilho na ponta do teu olhar. Ainda ontem as tuas mãos se estendiam sobre o meu corpo como se fosses o luar todo a namorar a terra. Ainda ontem quando a noite caía caíamos nós nos braços um do outro num aperto de paixão. Ainda ontem aprendi que as estrelas estão sempre no céu e que se as não vejo é porque o meu olhar se distrai no nevoeiro. Ainda ontem te repeti o prazer de amar a tua existência.
E de ontem para hoje tudo se alterou: o que me conduz até ti é o vento eterno e a dimensão das montanhas perpétuadas sobre os nossos corpos. São as pedras de um tempo inesgotável que se acomodam no leito de um rio onde corre o sangue do meu coração.
E de ontem para hoje tudo mudou: sou agora um dia mais de prazer e de desejo, de arrependimento dos instantes em que não te faço feliz, sou o peso fundo dos teus olhos tristes que aparto com o terror de te perder.
E manhã espero não temer a fragilidade do amor e seguir nos campos as cores das flores e a fertilidade das searas que me conduzem até ti.