14 de maio de 2009

Poema triste ao fim da tarde*

Já não usamos as palavras. Todas as tardes damos as mãos num aperto lasso, sob o cante taciturno das aves. Esgotamos os segredos num diálogo de silêncios. E crescemos a cada passo como dois velhos amantes, antigos guerreiros do amor, puros e eternos como diamantes. Desfazemo-nos, em demoradas promessas de dor, como se sôfrega se abatesse a esperança. E pela cidade percorremos as sombras fugindo do sol escaldante. Dividimos as ruas em metades feias e frias e cerramos as praças com os olhares perdidos. Já não usamos as palavras apenas as mãos dadas declaram os dias.
* Completamente fora de contexto, felizmente.

11 de maio de 2009

Poema em Ourique

daqui o meu olhar percorre os cerros que se enlaçam na planície branca
como os teus lábios saboreiam as sombras frescas do montado
e os nossos corpos se dão um ao outro nos vales acidentados

espero por ti desejo um olhar teu que me entenda a alma
e a tua mão de novo a percorrer a minha pele trigueira
onde sol se encosta de vez em quando

outrora corpos mais agrestes lançaram nestes campos
sangue e vida e glória e um pedaço de liberdade e de povo maior
que agora nos acolhe como a enamorados poetas cujas musas se perdem no amor

e tu minha musa figura acesa que me conduz à esperança
corpo de terra fértil onde semeio cada pedaço de mim
levas daqui o meu olhar e as metáforas e o peito aberto
como o campo branco que me enlaça

6 de maio de 2009

ideia solta

talvez o amanhã me espere como eu aguardo com esperança um mar verde denso e vasto onde o olhar se perca. talvez a utopia que me quer leve daqui um companheiro fausto.

3 de maio de 2009

Poema incompleto ao meu filho

Desejo-te as manhãs claras
O céu limpo e azul como os teus olhos
E a coragem das multidões que se unem como muralhas
Tantas vezes adormeço na implacável certeza
De que os teus olhos brilham mais que os meus
De que o teu corpo cresce no sentido oposto ao meu
Desafiando a vida num punhado de sorte
E repouso as preocupações por te saber mais forte
Por te reconhecer maior firmeza

E quando as noites caírem em surdina
Desejo-te o luar branco
Feito de fantasia e purpurina
A abrigar o teu dorso franco

24 de abril de 2009

Liberdade

Desejo um dia destes poder, ser capaz, de te escrever um poema. E entoar o teu nome em sílabas lentas: LI – BER – DA – DE! Gritá-lo nas ruas de cada cidade e gravar cada letra nas terras húmidas e férteis onde os homens e as mulheres colhem os pães. E de seguida morrer, como morrem todos os homens que te buscam e que te querem, enquanto sofro na cerimónia da espera. E depois virão os outros, os que não me conhecem, os que te desdenham, fazer troça de um poema e destruir a quimera. Mas o poema resistirá! Será meu e teu como o tempo de uma vida eterna.

O teu rosto

Numa destas manhãs o teu rosto levantou-se como a claridade do dia. E o teu olhar acolheu-me no leito que a madrugada contrariou. O amor tinha a forma dos nossos corpos, suados e extasiados de paixão. Lembro-me das minhas mãos tão pequenas a percorrer a tua pele sedosa enquanto ofegavas, recordo cada suspiro de prazer, cada gota transformada num grito. Deixamo-nos ficar até à tarde, como fazíamos antigamente quando o tempo era nosso e o amor nos saía pelos olhos. Fomos ficando abraçados num aperto de saudade como se um nó nos tivesse prendido um ao outro. Numa destas manhãs o teu rosto transformou-se naquele dia, e no dia seguinte, e no dia de hoje, e no dia de amanhã, até onde a memória o quiser levar.

19 de abril de 2009

Um corpo na madrugada

antes a madrugada tinha cheiro
e a forma contornável do teu corpo
as estrelas gritavam liberdade
sob os campos negros de janeiro

agora a madrugada tem a saudade
de um tempo que se gasta
como se a liberdade não tivesse
a força suficiente para dizer basta

a madrugada de amanhã desconhece
os aromas e os sons amordaçados
e o teu corpo de novo oprimido
afunda-se nos desejos cansados

18 de abril de 2009

O tempo

o tempo passa
e já não me esperas

o meu desespero adormece
nas horas devassas

no olhar mendigam lembranças
de um tempo que nos esquece

o tempo pára
no silêncio
nas palavras
nos gritos

e tudo morre em definitivo
no lugar da tua inexistência

18 de março de 2009

Pensamentos

Ontem à noite estava sentado num largo esvaziado pela madrugada, numa pequena vila costeira. À minha volta ouvia risos e gargalhadas. Conversas fúteis e disparatadas. Mas os meus pensamentos eram como o largo da vila: amplos e abertos, ligados ao mundo por duas estradas alinhadas por árvores e iluminação religioso-profana. Tenho a sensação que quiseram falar comigo, que me quiseram provocar com a circunstância das conversas. Não lhes respondi. Preferi o silêncio dos meus pensamentos, a tranquilidade do teu rosto junto à fonte iluminada que jorrava água. O meu telemóvel tocou. Já era tarde para esperar algum telefonema ou mensagem. Desinteressadamente retirei-o do bolso e surpreendi-me com as tuas palavras. Os meus olhos brilharam. Brilharam tanto que se apagou o encanto da fonte no centro do largo.

4 de março de 2009

Os dias do futuro (trechos)

A noite é como um berço que me acolhe, e por vezes é a madrugada que me agita. À noite pareço diferente. Sinto que o sou. Talvez a tranquilidade do céu, o silêncio das ruas, talvez a serenidade do meu espírito. À noite sou diferente. Sei que o sou. E à noite os pensamentos correm dentro de mim como se fossem rios em direcção ao mar. Deixo-os ir livres e divagantes.
Houve noites em que preferia não pensar. Ficava em casa aninhado nos lençóis, enfeitiçado por livros e séries televisivas. Deixava-me estar quieto, fingindo-me de morto. Queria que os outros acreditassem que já não existia. Queria acreditar que já não existia.
Houve dias em que o meu corpo vagueava como um vagabundo pelas ruas. Que se paralisava nas mesas dos cafés. Que se fingia vivo para não faltar aos outros. Nesses dias deixei-me ir, fiz o percurso do sol entre o nascente e o poente e só parava para o crepúsculo. Para o ocaso, não se desse o caso de voltar a acreditar.
E houve uma noite, digo noite porque já não sei e nestas coisas não se sabe o momento exacto, ou se quiseres um dia, em que ao olhar-te de longe admirava os teus gestos, as tuas expressões. E nessa noite, ou dia se preferires, aproximei-me de ti. Queria escutar a tua voz. Ouvir o que tinhas para dizer. Não a mim em particular. Bastava ouvir-te. E quando a tua voz em tom sereno e doce saiu do silêncio observador que até então te caracterizava se desenrolou em ideias e imagens claras de uma mulher diferente de todas as outras, percebi que o meu corpo tinha reencontrado uma razão para acreditar novamente.
E lá estavas: Finalmente um novo dia!
E desde então, seja noite ou seja dia, os meus pensamentos são puros e livres e alimentam o meu corpo em cada suspiro com tudo o que me trazes à vida.

Um dia, se esse dia chegar, e me quiseres tanto como te quero, e olhares para mim com o definitivo olhar do amor sentirei o mundo na palma da minha mão. E nesse dia, se esse dia chegar, serei poeta, profeta, vate, serei tudo o que o homem mais livre de todos poderá desejar.
Mas nos dias do presente, os do entretanto, voo no sentido da presa. Quero conquistar-te. Quero ter-te. Quero que sejas minha. E nos dias e nas noites que me trouxeste de volta à vida, vieram as minhas forças reforçadas e todas elas se ocupam de ti.