23 de maio de 2009

Poema sobre Beja III

caminhamos serenamente pelas ruas molhadas. a cidade fugiu da confusão. e os rostos que restam na tarde escondem a mágoa da desesperança. eu, tu e os outros somos cores esbatidas de uma cidade que se desenha a preto e branco. entre as ruelas irregulares e os casarios altos que se erguem inclinados os passos leves de uma caminhada surgem como se fossem gotas de água. e o desespero de uma taciturna fé toma conta de nós. sem aves no céu negro e frio a cidade resigna-se ao lugar passivo de maio. outrora, lembro-me bem, as ruas palpitavam com os corações. mas isso era no tempo em que as espigas cobriam os campos e pela aurora as papoilas acordavam a cidade. amanhã é outro dia, dizem-nos com a intenção de nos fazer ver. resta-nos o tempo: o de ontem, o de hoje e o de amanhã que temos de querer antes que os passos sequem.

19 de maio de 2009

Numa manhã assim

a manhã faz-se breve
como a ponta do teu olhar
assim fosse leve
o sentido de amar

os rios correm lentos
na demorada primavera
as searas tardam nos rebentos
quando o luar não espera

as tuas mãos apertam-me o desejo
trasparente como o teu sorriso
onde as estrelas despertam um beijo
na forma louca de um riso

escuto o cante fundo das searas
na manhã breve como o teu olhar
como sempre me desejaras
com a vontade limpa de te amar

14 de maio de 2009

Poema triste ao fim da tarde*

Já não usamos as palavras. Todas as tardes damos as mãos num aperto lasso, sob o cante taciturno das aves. Esgotamos os segredos num diálogo de silêncios. E crescemos a cada passo como dois velhos amantes, antigos guerreiros do amor, puros e eternos como diamantes. Desfazemo-nos, em demoradas promessas de dor, como se sôfrega se abatesse a esperança. E pela cidade percorremos as sombras fugindo do sol escaldante. Dividimos as ruas em metades feias e frias e cerramos as praças com os olhares perdidos. Já não usamos as palavras apenas as mãos dadas declaram os dias.
* Completamente fora de contexto, felizmente.

11 de maio de 2009

Poema em Ourique

daqui o meu olhar percorre os cerros que se enlaçam na planície branca
como os teus lábios saboreiam as sombras frescas do montado
e os nossos corpos se dão um ao outro nos vales acidentados

espero por ti desejo um olhar teu que me entenda a alma
e a tua mão de novo a percorrer a minha pele trigueira
onde sol se encosta de vez em quando

outrora corpos mais agrestes lançaram nestes campos
sangue e vida e glória e um pedaço de liberdade e de povo maior
que agora nos acolhe como a enamorados poetas cujas musas se perdem no amor

e tu minha musa figura acesa que me conduz à esperança
corpo de terra fértil onde semeio cada pedaço de mim
levas daqui o meu olhar e as metáforas e o peito aberto
como o campo branco que me enlaça

6 de maio de 2009

ideia solta

talvez o amanhã me espere como eu aguardo com esperança um mar verde denso e vasto onde o olhar se perca. talvez a utopia que me quer leve daqui um companheiro fausto.

3 de maio de 2009

Poema incompleto ao meu filho

Desejo-te as manhãs claras
O céu limpo e azul como os teus olhos
E a coragem das multidões que se unem como muralhas
Tantas vezes adormeço na implacável certeza
De que os teus olhos brilham mais que os meus
De que o teu corpo cresce no sentido oposto ao meu
Desafiando a vida num punhado de sorte
E repouso as preocupações por te saber mais forte
Por te reconhecer maior firmeza

E quando as noites caírem em surdina
Desejo-te o luar branco
Feito de fantasia e purpurina
A abrigar o teu dorso franco

24 de abril de 2009

Liberdade

Desejo um dia destes poder, ser capaz, de te escrever um poema. E entoar o teu nome em sílabas lentas: LI – BER – DA – DE! Gritá-lo nas ruas de cada cidade e gravar cada letra nas terras húmidas e férteis onde os homens e as mulheres colhem os pães. E de seguida morrer, como morrem todos os homens que te buscam e que te querem, enquanto sofro na cerimónia da espera. E depois virão os outros, os que não me conhecem, os que te desdenham, fazer troça de um poema e destruir a quimera. Mas o poema resistirá! Será meu e teu como o tempo de uma vida eterna.

O teu rosto

Numa destas manhãs o teu rosto levantou-se como a claridade do dia. E o teu olhar acolheu-me no leito que a madrugada contrariou. O amor tinha a forma dos nossos corpos, suados e extasiados de paixão. Lembro-me das minhas mãos tão pequenas a percorrer a tua pele sedosa enquanto ofegavas, recordo cada suspiro de prazer, cada gota transformada num grito. Deixamo-nos ficar até à tarde, como fazíamos antigamente quando o tempo era nosso e o amor nos saía pelos olhos. Fomos ficando abraçados num aperto de saudade como se um nó nos tivesse prendido um ao outro. Numa destas manhãs o teu rosto transformou-se naquele dia, e no dia seguinte, e no dia de hoje, e no dia de amanhã, até onde a memória o quiser levar.

19 de abril de 2009

Um corpo na madrugada

antes a madrugada tinha cheiro
e a forma contornável do teu corpo
as estrelas gritavam liberdade
sob os campos negros de janeiro

agora a madrugada tem a saudade
de um tempo que se gasta
como se a liberdade não tivesse
a força suficiente para dizer basta

a madrugada de amanhã desconhece
os aromas e os sons amordaçados
e o teu corpo de novo oprimido
afunda-se nos desejos cansados

18 de abril de 2009

O tempo

o tempo passa
e já não me esperas

o meu desespero adormece
nas horas devassas

no olhar mendigam lembranças
de um tempo que nos esquece

o tempo pára
no silêncio
nas palavras
nos gritos

e tudo morre em definitivo
no lugar da tua inexistência