31 de julho de 2007

Sem inspiração

Sem inspiração. E às palavras não se impõe sentimento. Nem se contrariam.

30 de julho de 2007

Gostava que soubesses...

gostava que soubesses
que o que te resta é a felicidade
peço-te que não te assustes
quando encontrares sorrisos e abraços
que dês os teus lábios aos beijos
e que caminhes serena e segura
gostava que soubesses
que o que te resta é a felicidade
apenas e tão só a felicidade
a que se tem por direito não a que se procura

Sobre Mariana Alcoforado

Sou um admirador da história e das cartas de Soror Mariana Alcoforado. Contudo não sou um especialista ou mais esclarecido do que no propósito de as sentir como leitor. Apesar de muitas teorias e interpretações que as cartas e a sua origem suscitem hoje como no passado, importa-me apenas o seu conteúdo e os contextos temporal e social que as valorizam.

Para mim, Soror Mariana Alcoforado desnudou a sua alma e o seu coração; por amor e pelo prazer de amar permitiu que as palavras seguissem o sentido do seu destinatário. Exposta pelo sentimento nobre do amor, resignou-se ao sofrimento e conviveu com ele na inquietude em que transformou a sua vida. O prazer, o de amar quem uma freira não deveria amar, não a impediu de deixar crescer o sentimento reproduzindo-o no papel de carta com excepcional pureza.

Ousei, e repito ousei, tentar seguir o trilho das suas palavras e ficcionando os seus sentimentos – que de outra maneira não o poderia fazer com honestidade – escrever em forma de poema (?) sobre frases que seleccionei de cada uma das cartas (tradução de Eugénio de Andrade, in Cartas Portuguesas, da Assírio e Alvim. 1998).

Perdoem o abuso!

Jorge Barnabé

“Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.”
Primeira carta

Em sobressalto desconheço-me
Tanto te quero que ao medo de te perder
Prefiro a dor violenta de não te ter
Entre mil palavras do teu silêncio
Escolho um adeus que me convença
Das promessas que entretanto arruinaste
Digo adeus querendo dizer que te desejo
Ou se quiseres infligir dor
Prefiro-a a aceitar que não existe amor.


“… E passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha vida.”
Segunda carta

Em meu redor tudo lembra a tua presença
Tudo explica o palpitar do meu coração
Repito o teu nome no silêncio forçado nos claustros
Para que as paredes altas te reconheçam
E se desmoronem quando decidires o regresso
E à brancura triste da minha cela
Apresento o teu retrato que colori com o amarelo dos girassóis
E o vermelho vivo das papoilas acordadas na planície
Enquanto te amo com o desvario de um amor maior que a própria vida.


“Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que quero; estou despedaçada por mil sentimentos contrários. Pode imaginar-se estado mais deplorável?”
Terceira carta

Amedronta-me ver o meu rosto no espelho de água
Que enche o chão irregular dos claustros
Nem sei se sou essa figura miserável que o amor venceu
Ou se aquilo em que me transformei é sombra da mágoa
Os meus trejeitos são apertados e incertos como o coração
Que me recruta entre estes muros que me separam do céu
Tanto desejo como temo amar-te com loucura
E cair nos teus braços para sempre ou fugir de ti
Simplesmente fugir esquecendo que não sei o que sou sem ti


“Bem sei que te amo perdidamente; no entanto, não lamento a violência do meu coração; habituei-me à sua tirania, e já não poderia viver sem este prazer que vou descobrindo: amar-te entre tanta mágoa.”
Quarta carta

Se o meu coração deseja comandar-me a vida
O meu corpo rende-se à sua prepotência
Proponho-lhe apenas que guarde o prazer de ti
De te amar consumida pela dor de não te ter
Que ainda assim me afiança não te esquecer
E à sua fogosidade me resigno
O que pode parecer desgosto não o é
Tão só amor que vivo na falta de ti

“De si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e não pensar mais em si. Creio mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta dos meus sentimentos?”
Quinta carta

Despeço-me com derradeiras palavras que me incendeiam o coração
Este que sofreu a suplicia da sua ignorância
Que se definhou na loucura da ausência
E na ferida do silêncio a que me destinou
Busco a serenidade no meu olhar para que possa esquecer de vez
A infidelidade das suas promessas que julguei puras
Como o ar macio que me toca na manhã de primavera
Despeço-me sim digo-lhe adeus por fim
Que já não sinto dever de lhe dar o meu amor

29 de julho de 2007

Depois

Depois do amor dois corpos caiem sobre a cama velha sem ruído, frios como o prazer que já não têm, imóveis como as paredes que os cercam sem suspirar. Depois do amor dois corpos vestem-se com as vestes do adeus, num até sempre que não desejam. Num regresso que não querem repetir. Depois do amor dois corpos já não fazem sentido serem um só...

Basta o Amor

Nem as horas são suficientes para que me aborreças. Basta-me o teu amor. E se te amo, e tu me amas, então querer é tão só um desejo consequente. E os teus olhos não gastarão os meus; e o teu sorriso não colidirá com o meu; e nem as palavras ausentes farão suficiente silêncio para que esqueça que me amas! Entre nós o silêncio construímo-lo à medida que o nosso amor crescer, para que seja, não mágoa, mas outra forma de querer...

28 de julho de 2007

Na forma do amor

E a terra parece que nos engole
em cada instante de desejo
e a lua parece que nos escolhe
na frescura de cada beijo
e as árvores agitam-se frondosas
iludindo os nossos sentidos
e as estrelas passeiam caprichosas
pelos nossos corpos perdidos
e o mar tão longe nos aguarda
repousando no areal deserto
à noite quando a maresia nos afaga
na intenção pura de cada afecto
e o nosso sentimento cresce
como semente se torna flor
que o céu à terra desce
quando nos definirmos na forma do amor

27 de julho de 2007

Finalmente

Finalmente um novo dia... Por fim o Amor!
E os meus olhos brilham de novo. E o meu rosto sorri naturalmente.

26 de julho de 2007

Castelo de Beja

Publico a primeira foto em O Outro Crepúsculo. Retirada da galeria de João Sardica, onde para além desta se podem admirar muitas outras de notável qualidade, escolhi uma perspectiva impar sobre o Castelo de Beja.


Para quem não sabe a torre de menagem do castelo tem uma ligação especial para os bejenses, servindo como azimute. A sua imponência destaca-se nos campos planos que circundam a cidade e é visível desde muito longe.


Ao João Sardica agradeço a autorização para a sua publicação e exorto-o a continuar a deliciar-nos com estas imagens. Um dia, meu caro, aliaremos a poesia às fotografias...

Estás aqui

estás aqui:
no lugar mais perfeito, onde tudo tem sentido, onde tudo faz sentido.

Sono profundo

Não dei pela manhã. Passou por mim enquanto dormia num quarto escuro e frio. Sonhei com as futilidades noctivagas das conversas. Deixei o meu corpo imóvel sobre a cama larga e cobri-o com o silêncio. Não ouvi os pássaros ao nascer do dia. Não senti a luz solar a entrar nas frestas dos estores. Um sono profundo tirou-me o prazer da manhã azul e limpa.