30 de abril de 2008

Quis o destino

quis o destino levar-me ao engano
num fim de tarde incerto pelas planícies
segui o canto das searas já crescidas
num silêncio fundo e profano

os caminhos esses fi-los em jeito de despedidas
sem abraços ou beijos sem palavras incómodas
voltarei um dia mais tarde quando o passar um ano

11 de abril de 2008

Também eu

também eu sinto e desejo
também eu preciso e quero
também eu percebo e vejo
a noite que se encerra no inverno

8 de abril de 2008

Cantiga de Abril

Amar,
enquanto sigo o canto das aves
e baloiço com as folhagens frescas

Amar,
porquanto o meu ser vive do teu
e os teus lábios matam a sede aos meus

Amar,
entre os riscos do horizonte
onde sonho os dias depois de hoje

Amar,
com as mãos apertando a vida
e os pés firmes na terra fértil

Amar-te,
porquanto o meu coração se torna refém do amor

27 de março de 2008

Olhar

falaram-me de uma manhã de sol e ela chegou cinzenta e cabisbaixa. acordei com o teu sorriso no meu olhar e o calor do teu corpo de vida nas minhas mãos. sigo o caminho da distância por entre planícies cobertas de orvalho. a tua imagem acompanha-me para onde vá...

11 de março de 2008

Ciclo das estações

no principio eramos do crepúsculo no verão ainda jovem
percorriamos as ruas impelidos nas brisas frescas
e aguardavamos pelo reencontro no silêncio nocturno das frondosas árvores
depois confortamo-nos no interior do outono
onde as árvores discretamente nuas erguiam os nossos corpos
camuflados pelos nevoeiros matinais
e entretanto fizemos no inverno acontecer o amor
entre gotas de água e camas quentes de prazer
e do inverno fazemos a primavera que já não tarda
e nela se completará o ciclo das estações
onde o meu corpo e o teu corpo se eternizarão
na forma pura do amor

28 de fevereiro de 2008

Paixão

talvez não reconheças nos meus gestos a expressão da paixão,
nem no brilho intenso do meu olhar o desejo de ti na minha vida.
talvez não saibas que vem de ti a energia que me move,
ou sequer que a forma do meu corpo se molda da tua figura.
talvez não saibas o sentido profundo do meu coração,
as amarguras da minha alma de cada vez que nos apartamos.
talvez é a dúvida razoável que nos alimenta
e apenas por isso a paixão se renova.

27 de fevereiro de 2008

Aponto o olhar...

aponto o olhar na direcção de um corpo vazio
com o único propósito de fugir ao teu olhar
desejo a fuga definitiva e permanente
desafio a natureza do meu ser
forço a corrente dominadora de um rio
e dou por mim a vacilar
o meu olhar é a única arma que resta
a única defesa que tenho para sobreviver

26 de fevereiro de 2008

Estado de alma

ruiram as paredes na passagem de uma brisa
no chão amontuaram-se reinveinções e desejos inconsequentes
na tarde cresceu o silêncio agudo que adormeceu as aves
não basta o sol no céu azul de inverno
nem as searas em cantos de primavera
num dia, num gesto, tudo se precipita

25 de fevereiro de 2008

Todos os dias

Todos os dias renasces em mim no canto da natureza, tomas as formas das ávores altas e densas que rasgam as planícies, retenho das flores o teu aroma feminino que me enebria os sentidos, e dos rios a frescura dos teus lábios húmidos. Em cada acordar os meus sentimentos brotam da aurora numa crescente convicção de te amar. Todos os dias, desde os dias que a tua imagem me persegue, descubro a vida. E da vida faço vida. E da vida faço o desejo de viver.

22 de fevereiro de 2008

Beijo

Aguardava por si como quem aguarda o suspiro final. Em desespero, entre desalentos cultivou-se marginal. Percorreu as ruas apinhadas. Vagueou entre mesas de café. Acomodou-se no centro de um largo acompanhado por um pensamento: ela. Aguardava. Aguardava na espera longa de a ver. De a ter junto a si. E desejou mil coisas. E sentiu mil desejos. E fechou os olhos na esperança de um beijo e de um abraço. E desejou ouvir as palavras como ecos das suas. E desejou o seu suspiro aliviado a desfazer-se sobre si. Aguardou como se esperasse uma vida inteira.
Surgiu estranha. Não esperava outra coisa. Sentiu o seu rosto abatido. O seu olhar esgotado. Tremeu porque julgou que por si o seu olhar já não brilhasse. Reencontraram-se como estranhos. Sem abraço. Sem beijos. Circunstancialmente, pareceu-lhe de imediato. Partiram para a conversa. Outra vez as palavras, de novo as frases feitas e os conceitos apertados. As mãos expostas longe um do outro. Os olhares iniciais fugidios e covardes de os quererem encontrar. E o seu corpo desejando o dela. E o seu ser inclinando-se sobre ela. E ele frágil e temeroso. A ansiedade nele. Um nó no estomago persegue-o na sua ausência. Parte de si - talvez a mais pura e bela - despe-o de cada vez que ela se afasta.
Longos e fundos minutos passaram. Longos e profundos instantes percorreram o seu corpo. E as palavras rudes e o desalento da esperança vestiram-lhe a pele interior. E ao fundo prédios altos como muralhas. E nuvens densas como mordaças. E de si um olhar frio e descomprometido. E nem mais palavras. Nem mais desculpas. E uma mão rompe o silêncio da amargura. E um gesto crescente constrói um beijo. O mais doce e fresco, o mais simples e desejado beijo.