6 de agosto de 2010

tarde de verão

apontamos o olhar numa direcção distante, como se fosse um laço que se atira ao destino. e no regresso o reflexo traz-nos a vontade de algo mais. de um novo horizonte, de uma nova utopia. convencemos o olhar, enganamo-nos, tal como o amor engana. e damos lugar ao sonho. apenas ao sonho...

8 de julho de 2010

Inquietude

inquietam-me as árvores
paradas na planície
que tarda em anoitecer
e as aves que voam em circulos
no transparente céu azul
inquietam-me as árvores alinhadas
fingindo que a natureza é geométrica
e o silêncio do entardecer
as ruas resignadas acomodadas
fartas de viver
inquietam-me as mãos vazias
ocas de um corpo para percorrer
desde esta janela tudo me inquieta
tudo
como se o tempo tivesse parado
num nó de desesperança

30 de março de 2010

Elo matinal

contigo as manhãs nascem claras sem uma única núvem no céu sempre azul, como o teu olhar. o meu corpo acorda no aperto dos teus abraços que fazem valer os dias numa claridade enebriante. segues-me com o olhar, sorrindo, a pedir que não vá. a pedir que não parta.
amanhã esperarei por ti, de novo, quando a aurora romper e o teu corpo abraçar o meu. e numa palavras resumirás tudo...

21 de agosto de 2009

Antes de ti

antes de ti desconhecia o amor
as palavras vazias ocupavam os espaços dos sentidos
como se fossem uma constelação de estrelas sobre o deserto
as mãos caídas em redor do meu corpo
eram inúteis e frágeis como a esperança do incerto
antes de ti o sabor dos meus lábios eram áridos cerros
que ignoravam a frescura da paixão.

antes de ti nada ou quase nada existia. nem eu.
e temo regressar ao estádio etéreo que a tua ausência provoca.

5 de agosto de 2009

Poema sobre qualquer coisa mais

Inebriam-me os olhares leves e discretos que escondem a planície e esse sorriso que inunda os desertos onde brotam rosas vermelhas, encarnadas, da cor do sangue, no tom aceso da paixão. Encantam-me as tuas formas adolescentes que rasgam os campos como beijos. E cada aperto do meu coração se ergue como desejos, desejo de ti, da tua boca, da tua pele. Espero-te. Aguardo um novo olhar, um abraço que nos enlace como se fosse esperança e qualquer coisa mais.

27 de maio de 2009

Perpetuação do amor

tantas vezes sonho com o teu corpo deitado sobre aquela planura
que o tempo eternizou em suaves relevos
tantas vezes o meu olhar se perde no caminho do horizonte
guardando-te como fundos segredos
e a força do nosso amor reinventa-se na nostalgia e na loucura
tantas vezes o meu ser se eleva na busca delirante
do aroma fresco e doce do teu corpo
e de cada vez reencontro as razões para te amar
as tuas mãos enlaçadas nas minhas como raízes
e os dois perpetuamente inseparáveis
como o céu e a terra das utopias felizes

25 de maio de 2009

O que é bom nunca é demais


Já falei sobre o que penso deste blogue. E para os mais desconfiados e especuladores haverá sempre razão para não entenderem as verdadeiras razões do que escrevo e porque o escrevo. Mas também por isto se torna um blogue especial.

Há blogues muito bons na nossa terra mas nenhum como este. Existem estilos diferentes, e até mais apurados, mas o seu estilo é o que o destingue. Há outros interesses acima deste blogue mas o que torna este blogue interessante é não ser conivente com interesses. Há quem goste tanto desta terra como o seu editor mas o que faz deste editor uma personalidade regional não é apenas a estética mas também a perspicácia, a pertinência e uma grande dose de persistência.

Haverá por aí quem não goste deste blogue. E ainda bem que há. Porque este blogue tem uma característica esclusiva dos projectos marcantes: ou se ama ou se odeia. E sabemos bem que os que odeiam têm boas razões para o fazer: são as diferenças, ou melhor, a dificuldade em conviver com as diferenças.
Parabéns João pelo 6º Aniversário. Já não é hora de questionar, agora é ir em frente!


23 de maio de 2009

Poema sobre Beja III

caminhamos serenamente pelas ruas molhadas. a cidade fugiu da confusão. e os rostos que restam na tarde escondem a mágoa da desesperança. eu, tu e os outros somos cores esbatidas de uma cidade que se desenha a preto e branco. entre as ruelas irregulares e os casarios altos que se erguem inclinados os passos leves de uma caminhada surgem como se fossem gotas de água. e o desespero de uma taciturna fé toma conta de nós. sem aves no céu negro e frio a cidade resigna-se ao lugar passivo de maio. outrora, lembro-me bem, as ruas palpitavam com os corações. mas isso era no tempo em que as espigas cobriam os campos e pela aurora as papoilas acordavam a cidade. amanhã é outro dia, dizem-nos com a intenção de nos fazer ver. resta-nos o tempo: o de ontem, o de hoje e o de amanhã que temos de querer antes que os passos sequem.

19 de maio de 2009

Numa manhã assim

a manhã faz-se breve
como a ponta do teu olhar
assim fosse leve
o sentido de amar

os rios correm lentos
na demorada primavera
as searas tardam nos rebentos
quando o luar não espera

as tuas mãos apertam-me o desejo
trasparente como o teu sorriso
onde as estrelas despertam um beijo
na forma louca de um riso

escuto o cante fundo das searas
na manhã breve como o teu olhar
como sempre me desejaras
com a vontade limpa de te amar

14 de maio de 2009

Poema triste ao fim da tarde*

Já não usamos as palavras. Todas as tardes damos as mãos num aperto lasso, sob o cante taciturno das aves. Esgotamos os segredos num diálogo de silêncios. E crescemos a cada passo como dois velhos amantes, antigos guerreiros do amor, puros e eternos como diamantes. Desfazemo-nos, em demoradas promessas de dor, como se sôfrega se abatesse a esperança. E pela cidade percorremos as sombras fugindo do sol escaldante. Dividimos as ruas em metades feias e frias e cerramos as praças com os olhares perdidos. Já não usamos as palavras apenas as mãos dadas declaram os dias.
* Completamente fora de contexto, felizmente.