3 de janeiro de 2011

Um Olhar

respiro fundo junto ao teu olhar
como se nele me confortasse
e o tempo parasse
sem receio de parar
e em ti tudo recomeçasse
um olhar é um olhar
mas não o teu
que tem jeito de desejar
e brilho para encantar
um desejo meu

27 de dezembro de 2010

Fingir

Não aguardemos mais pelo dia que tarda a realizar o nosso encontro. Ignoremos as palavras que acentuam o silêncio. Procuremos num e noutro o esplendor da poesia. Façamos de conta, fingindo, que ainda nos queremos um ao outro e que acreditamos nos compromissos. Façamos do tempo a nossa casa: ampla e sossegada, contornada de flores e de aromas. Vamos fingir que somos felizes, que nos damos um ao outro como as árvores se dão no chão fértil. Será tão fácil fantasiar que os nossos corpos se atraem: o meu peito nos teus seios, as tuas mãos apertando-me, os lábios a consumirem-se com paixão. E beijemo-nos. Que nos beijos tudo recomeçará.  

24 de dezembro de 2010

Amanhã (Vaticinando)

seremos outra vez ar e terra, de novo água e fogo. voltaremos à esperança como quem regressa a casa depois do desacerto dos dias sem graça. começaremos um novo dia com os olhares de sempre, reencontraremos os sorrisos e as mãos que nos prolongam. ficaremos em silencio a olhar o crepúsculo que cai sobre o mar. e cantaremos sob a copa da árvore que nos guarda as promessas.

20 de dezembro de 2010

Dia de todos os Dias

há dias e dias. dias melhores e piores. dias muito bons, extasiados. dias menos bons, perturbadores. e há os dias como o de hoje, em que fico sem palavras. sem reacção. sem forma. sem conteúdo. talvez amanhã nasça outro dia. pelo menos diferente.

18 de dezembro de 2010

JUÍZO

julgavamo-nos do tamanho do mundo ocupando todos os lugares, mesmo aqueles que os homens comuns não ocupam, julgavamo-nos desconhecendo que não somos nada que somos apenas ridiculos na pretensão de nos julgarmos mais do que o tempo nos concede.

17 de dezembro de 2010

recupero o fôlego só por saber que ainda aí estás... embora o silêncio, o mundo não tem outro sentido.

11 de dezembro de 2010

Pelo Contrário

No caminho de casa uma estrada a direito ladeada de plátanos com folhagem dourada guia-nos no silêncio do amor.

porque o amor também tem silêncio e nem sempre as palavras alimentam a paixão. pelo contrário... 

por vezes as palavras têm o tom da dor, são ditas com mágoa.

8 de novembro de 2010

POEMA E DESENCONTRO

Nos teus lábios sinto o desacerto entre nós, 
como se fosse um beijo 
feito do silêncio que nos arreda. 
Já não fechas os olhos, nem me acaricias a pele. 
Transformamos os impulsos num costume, 
sem acasos. 
Consumimo-nos um ao outro 
sem perceber que o tempo nos consome. 
Já não te sentas ao meu lado, 
nem dizes o meu nome. 
Perdemo-nos no sossego da planície, 
cada um para o seu lado, 
com uma estrada ao meio 
e beijos apagados a fingir que são beijos. 
E nos lugares desencontramo-nos 
com os olhares sumidos, 
perdemos os lugares e os crepúsculos, 
perdemo-nos um ao outro 
numa mágoa taciturna.

3 de novembro de 2010

às vezes penso em ti. sim, de quando em vez, muito espaçadamente. não é coisa boa nem coisa má. são pensamentos soltos e bassos. porque me fizeste acreditar que nem lembrar faz sentido. para além de me convenceres que nem amor existe. e quase que conseguiste. mas penso em ti, como dizia, espaçadamente. uma imagem aqui, outra preocupação acolá e muita curiosidade. depois o pensamento vai-se ainda mais ligeiro. passageiro, é como se diz. e quando percorro as ruas abertas e largas já não olho ao topo dos edificios na esperança de te rever. nem confundo as árvores da cidade com as do campo. as ruas são todas iguais desde que me levem ao centro do largo. lembras-te, do largo, o centro do mundo, que fantasiamos uma ou outra vez? agora é outro largo e mais central, mais, como dizer, mais largo, mais pessoal e infinito como a esperança. e as árvores são as árvores, as do campo, claro. perfumadas e coloridas, desalinhadas. porque a natureza não alinha. e são resistentes, sabes?

POEMA EGOCÊNTRICO

já não me inquietam as palavras nem os gestos
nem os outros errantes que me afrontam por despeito
nada voltará a ser como dantes nem palavras nem gestos
nem sequer o meu corpo refeito das ausências e dos desamores
nem a desesperança me amedronta ou a esperança me deslumbra
que agora sou cinzento às cores coragem sem medo da afronta
luz branca-suave entre a penumbra