antes a madrugada tinha cheiro
e a forma contornável do teu corpo
as estrelas gritavam liberdade
sob os campos negros de janeiro
agora a madrugada tem a saudade
de um tempo que se gasta
como se a liberdade não tivesse
a força suficiente para dizer basta
a madrugada de amanhã desconhece
os aromas e os sons amordaçados
e o teu corpo de novo oprimido
afunda-se nos desejos cansados
19 de abril de 2009
18 de abril de 2009
O tempo
o tempo passa
e já não me esperas
o meu desespero adormece
nas horas devassas
no olhar mendigam lembranças
de um tempo que nos esquece
o tempo pára
no silêncio
nas palavras
nos gritos
e tudo morre em definitivo
no lugar da tua inexistência
e já não me esperas
o meu desespero adormece
nas horas devassas
no olhar mendigam lembranças
de um tempo que nos esquece
o tempo pára
no silêncio
nas palavras
nos gritos
e tudo morre em definitivo
no lugar da tua inexistência
18 de março de 2009
Pensamentos
Ontem à noite estava sentado num largo esvaziado pela madrugada, numa pequena vila costeira. À minha volta ouvia risos e gargalhadas. Conversas fúteis e disparatadas. Mas os meus pensamentos eram como o largo da vila: amplos e abertos, ligados ao mundo por duas estradas alinhadas por árvores e iluminação religioso-profana. Tenho a sensação que quiseram falar comigo, que me quiseram provocar com a circunstância das conversas. Não lhes respondi. Preferi o silêncio dos meus pensamentos, a tranquilidade do teu rosto junto à fonte iluminada que jorrava água. O meu telemóvel tocou. Já era tarde para esperar algum telefonema ou mensagem. Desinteressadamente retirei-o do bolso e surpreendi-me com as tuas palavras. Os meus olhos brilharam. Brilharam tanto que se apagou o encanto da fonte no centro do largo.
4 de março de 2009
Os dias do futuro (trechos)
A noite é como um berço que me acolhe, e por vezes é a madrugada que me agita. À noite pareço diferente. Sinto que o sou. Talvez a tranquilidade do céu, o silêncio das ruas, talvez a serenidade do meu espírito. À noite sou diferente. Sei que o sou. E à noite os pensamentos correm dentro de mim como se fossem rios em direcção ao mar. Deixo-os ir livres e divagantes.
Houve noites em que preferia não pensar. Ficava em casa aninhado nos lençóis, enfeitiçado por livros e séries televisivas. Deixava-me estar quieto, fingindo-me de morto. Queria que os outros acreditassem que já não existia. Queria acreditar que já não existia.
Houve dias em que o meu corpo vagueava como um vagabundo pelas ruas. Que se paralisava nas mesas dos cafés. Que se fingia vivo para não faltar aos outros. Nesses dias deixei-me ir, fiz o percurso do sol entre o nascente e o poente e só parava para o crepúsculo. Para o ocaso, não se desse o caso de voltar a acreditar.
E houve uma noite, digo noite porque já não sei e nestas coisas não se sabe o momento exacto, ou se quiseres um dia, em que ao olhar-te de longe admirava os teus gestos, as tuas expressões. E nessa noite, ou dia se preferires, aproximei-me de ti. Queria escutar a tua voz. Ouvir o que tinhas para dizer. Não a mim em particular. Bastava ouvir-te. E quando a tua voz em tom sereno e doce saiu do silêncio observador que até então te caracterizava se desenrolou em ideias e imagens claras de uma mulher diferente de todas as outras, percebi que o meu corpo tinha reencontrado uma razão para acreditar novamente.
E lá estavas: Finalmente um novo dia!
E desde então, seja noite ou seja dia, os meus pensamentos são puros e livres e alimentam o meu corpo em cada suspiro com tudo o que me trazes à vida.
Um dia, se esse dia chegar, e me quiseres tanto como te quero, e olhares para mim com o definitivo olhar do amor sentirei o mundo na palma da minha mão. E nesse dia, se esse dia chegar, serei poeta, profeta, vate, serei tudo o que o homem mais livre de todos poderá desejar.
Um dia, se esse dia chegar, e me quiseres tanto como te quero, e olhares para mim com o definitivo olhar do amor sentirei o mundo na palma da minha mão. E nesse dia, se esse dia chegar, serei poeta, profeta, vate, serei tudo o que o homem mais livre de todos poderá desejar.
Mas nos dias do presente, os do entretanto, voo no sentido da presa. Quero conquistar-te. Quero ter-te. Quero que sejas minha. E nos dias e nas noites que me trouxeste de volta à vida, vieram as minhas forças reforçadas e todas elas se ocupam de ti.
27 de fevereiro de 2009
A espera
O teu sorriso tarda em chegar. Aguardo com ansiosa paixão o nosso reencontro. Os abraços apertados como as mãos cerradas. Os beijos longos e apaixonados como as noites descansadas. Espero por ti. Já estou só nesta espera, o sol foge pela tarde. Os pássaros recolhem-se mais cedo que o costume. E eu recolho-me nesta amarga ansiedade. Quero rever-te! Quero olhar o teu rosto delicado, perfeito e irrepreensível. Quero sentir o pulsar do teu corpo a desejar o meu. Perder-me na loucura de um romance que me ultrapassa. Quero ter-te! E aguardo… iludindo o meu coração a cada segundo que passa.
26 de fevereiro de 2009
Que madrugada?...
que madrugada é esta que nos afasta?
são de silêncio as paredes que me apertam
numa noite de solidão usada e gasta
que palavras são essas que não se escutam?
são como montanhas que nos afastam.
que silêncio e mágoa se apoderam de nós?
somos um mar mudo e distante,
aves que voam alto e em voo veloz
nos sentidos opostos de um amor desesperante.
são de silêncio as paredes que me apertam
numa noite de solidão usada e gasta
que palavras são essas que não se escutam?
são como montanhas que nos afastam.
que silêncio e mágoa se apoderam de nós?
somos um mar mudo e distante,
aves que voam alto e em voo veloz
nos sentidos opostos de um amor desesperante.
14 de fevereiro de 2009
Olhar brando
Levo o olhar brando de uma planícieNa memória tranquila do nosso afecto,
O som das aves anunciando Abril
Dita as profecias de uma paixão em que desperto.
Carrego nos braços um desejo intenso de mar
Como o aroma frio da maresia ao respirar.
O teu corpo acolhe o meu, tal qual as ondas se apertam,
Tal qual os beijos que se dão na áspera madrugada;
As mãos dadas são vestígios que nos acertam
E o areal, chão efémero da nossa caminhada.
Etiquetas:
Foto: litoralalentejano.no.sapo.pt/
Dia dos namorados

Hoje será dia de poucas palavras.
Mais acção.
Abraços e beijos, sorrisos e olhares inflamados de paixão.
10 de fevereiro de 2009
Hoje percebi no teu corpo...
hoje percebi no teu corpo o desejo da paixão
segui com os meus olhos cada passo do teu olhar
como se seguem as nuvens numa noite de ilusão
elevei no ar cansado das planícies o teu cheiro
assim fosses a primavera que anseiam abraçar
entendi nas tuas mãos os gestos puros do amor
que me apertavam como apertado vive o meu coração
infantil e louco desesperado por sentir o teu fervor
levei-te numa viagem longa sobre o planalto
tal qual antigamente quando nos dávamos em sobressalto
nas bermas das estradas, sob os pontões escuros
ou acomodados nas sombras das árvores
e uma outra vez emparedados entre muros
enquanto percorria a estrada larga e recta
percebi as saudades da paixão que me afecta
levei o meu corpo ao encontro do teu fresco e doce
antes que o tempo me levasse para onde não fosse
o meu desejo a minha vontade de te ter outro dia com prazer
tal qual te prometi: para sempre enquanto o sangue me percorrer
segui com os meus olhos cada passo do teu olhar
como se seguem as nuvens numa noite de ilusão
elevei no ar cansado das planícies o teu cheiro
assim fosses a primavera que anseiam abraçar
entendi nas tuas mãos os gestos puros do amor
que me apertavam como apertado vive o meu coração
infantil e louco desesperado por sentir o teu fervor
levei-te numa viagem longa sobre o planalto
tal qual antigamente quando nos dávamos em sobressalto
nas bermas das estradas, sob os pontões escuros
ou acomodados nas sombras das árvores
e uma outra vez emparedados entre muros
enquanto percorria a estrada larga e recta
percebi as saudades da paixão que me afecta
levei o meu corpo ao encontro do teu fresco e doce
antes que o tempo me levasse para onde não fosse
o meu desejo a minha vontade de te ter outro dia com prazer
tal qual te prometi: para sempre enquanto o sangue me percorrer
8 de fevereiro de 2009
Outros dias
Foto: AquiAo meio-dia e meia hora entrou no restaurante como combinado. O chefe de sala, reconhecendo-o, dirigiu-se até si e cumprimentou-o com distinção. Pediu uma mesa para dois e foi até ao bar enquanto esperava por ela. Aguardou quase quinze minutos no bar até que chegou a sua companhia. Cumprimentaram-se educadamente com um beijo na face e dirigiram-se à mesa acompanhados pelo chefe de sala. Enquanto liam a lista das refeições ela interpelou-o secamente: “Que fique claro que o que defendo é uma partilha justa. E o que interessa é que sejamos práticos a resolver as coisas. Quero seguir em frente e não ter olhar para trás.” Disse, apanhando-o de surpresa. “ Espero que estejas bem, isso parece-me também importante. Quanto ao resto julgo que somos suficientemente inteligentes para fazer as coisas com bom senso. E é por isso que aqui estamos. Certo?” Retorquiu, com um tom calmo e pausado. “Certo. É para isso que aqui estamos. E estou mais ou menos. Desculpa esta pressão.” Respondeu-lhe consciente de uma abordagem agressiva.
Há três semanas que não se viam. A última vez que estiveram juntos foi no apartamento comum no dia em se decidiram ao divórcio. Ele saiu de casa com umas malas de roupa e foi viver para um hotel na zona das avenidas novas. Desde então deram um ao outro espaço para digerirem a situação e acalmar os ânimos. Nestas coisas, mesmo que as pessoas entendam as razões dos afastamentos, os efeitos de uma separação são sempre motivo de algumas amarguras e de um sentimento de falha. Na véspera ela ligou-lhe para o telemóvel já ao fim do dia a convidá-lo para almoçarem juntos e conversarem sobre as “coisas pendentes”. Acedeu prontamente, combinando com o seu consentimento o almoço para o dia seguinte no restaurante que frequentavam desde os tempos de namoro.
A conversa fluía naturalmente sem sequer tocarem nas razões que os conduziram à decisão de se divorciarem. Os bens a partilhar eram alguns de mas de fácil resolução. Não sendo um casal rico tinham algumas posses: um apartamento em Lisboa e um outro no Algarve, em Lagos, dois carros, uma conta comum e uns quadros que ela coleccionava com estima e sacrifício. A mulher trouxe para o almoço um plano de divisão que entretanto elaborara com a ajuda de uma amiga advogada. No fim da refeição entregou-lhe uma cópia e pediu-lhe que reflectisse sobre a proposta: vender a casa de férias, um carro para cada, ela ficava com os quadros e um dos dois compraria a casa de Lisboa ao outro, com um acerto de contas justo. Respondeu-lhe que iria ler o documento com atenção e que lhe daria uma resposta prontamente. “Parece-me uma proposta justa, mas vou ler com atenção e resolveremos tudo com a maior brevidade. Queres que trate do processo de oficialização do divórcio?” Perguntou disponibilizando os seus conhecimentos de advogado. “Prefiro que seja a Luísa a fazê-lo. Quanto menos nos envolvermos melhor.” Respondeu. “Pois bem, que seja. Por mim tudo bem. Ela que me ligue e dou-lhe os elementos que precisar.” O almoço aproximava-se do fim e o ambiente mais descontraído permitiu a troca de alguns sorrisos e a cumplicidade entre ambos. A mulher falava descontraidamente sobre as suas últimas semanas. E o seu sorriso abria-se com o passar dos minutos. O homem, com as duas mãos sobre o pano branco da mesa ouvia-a atentamente e retribuía-lhe com igual sorriso. Por instantes pareceu divagar com um olhar brilhante e risonho. “O que se passa? Não estás aqui?!”. “Estou aqui sim. Estou a admirar-te… às vezes fazes-me lembrar a mulher por quem me apaixonei.” Respondeu-lhe com um tom meigo e romântico. Ela sorriu emocionada e estendeu a sua mão até à dele, apertando-a com vigor. “ Às vezes…” reafirmou-lhe ele com a certeza de quem não acredita em regressos.
Há três semanas que não se viam. A última vez que estiveram juntos foi no apartamento comum no dia em se decidiram ao divórcio. Ele saiu de casa com umas malas de roupa e foi viver para um hotel na zona das avenidas novas. Desde então deram um ao outro espaço para digerirem a situação e acalmar os ânimos. Nestas coisas, mesmo que as pessoas entendam as razões dos afastamentos, os efeitos de uma separação são sempre motivo de algumas amarguras e de um sentimento de falha. Na véspera ela ligou-lhe para o telemóvel já ao fim do dia a convidá-lo para almoçarem juntos e conversarem sobre as “coisas pendentes”. Acedeu prontamente, combinando com o seu consentimento o almoço para o dia seguinte no restaurante que frequentavam desde os tempos de namoro.
A conversa fluía naturalmente sem sequer tocarem nas razões que os conduziram à decisão de se divorciarem. Os bens a partilhar eram alguns de mas de fácil resolução. Não sendo um casal rico tinham algumas posses: um apartamento em Lisboa e um outro no Algarve, em Lagos, dois carros, uma conta comum e uns quadros que ela coleccionava com estima e sacrifício. A mulher trouxe para o almoço um plano de divisão que entretanto elaborara com a ajuda de uma amiga advogada. No fim da refeição entregou-lhe uma cópia e pediu-lhe que reflectisse sobre a proposta: vender a casa de férias, um carro para cada, ela ficava com os quadros e um dos dois compraria a casa de Lisboa ao outro, com um acerto de contas justo. Respondeu-lhe que iria ler o documento com atenção e que lhe daria uma resposta prontamente. “Parece-me uma proposta justa, mas vou ler com atenção e resolveremos tudo com a maior brevidade. Queres que trate do processo de oficialização do divórcio?” Perguntou disponibilizando os seus conhecimentos de advogado. “Prefiro que seja a Luísa a fazê-lo. Quanto menos nos envolvermos melhor.” Respondeu. “Pois bem, que seja. Por mim tudo bem. Ela que me ligue e dou-lhe os elementos que precisar.” O almoço aproximava-se do fim e o ambiente mais descontraído permitiu a troca de alguns sorrisos e a cumplicidade entre ambos. A mulher falava descontraidamente sobre as suas últimas semanas. E o seu sorriso abria-se com o passar dos minutos. O homem, com as duas mãos sobre o pano branco da mesa ouvia-a atentamente e retribuía-lhe com igual sorriso. Por instantes pareceu divagar com um olhar brilhante e risonho. “O que se passa? Não estás aqui?!”. “Estou aqui sim. Estou a admirar-te… às vezes fazes-me lembrar a mulher por quem me apaixonei.” Respondeu-lhe com um tom meigo e romântico. Ela sorriu emocionada e estendeu a sua mão até à dele, apertando-a com vigor. “ Às vezes…” reafirmou-lhe ele com a certeza de quem não acredita em regressos.
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