31 de outubro de 2007

Poema sobre o reencontro

poderiam todas as madrugadas estar estreladas
com o orvalho a cair nos campos
que não trocava o teu sorriso e os teus lábios por nada
poderiam todas as manhãs surgir na leveza de um pássaro
que jamais abdicaria de um olhar teu

30 de outubro de 2007

Plátanos e sombras

Adormeci abraçado às tuas palavras, a esse abraço apertado e quente que desejo com saudade. E esta manhã acordei com um sorriso nos lábios, com a maior vontade de viver que algum dia julguei poder ter. E tudo por um abraço distante que imaginei enquanto adormecia. A manhã, e repito-me, está azul como a tarde de ontem onde me invadiste os pensamentos. Mas hoje não posso ir ver a cidade branca de longe. Não vou poder acomodar-me no silêncio inquieto da aldeia plana de casas rasas e brancas com barras amarelas e azuis. Hoje não. Hoje a vida conduziu-me aos lugares da minha infancia: ao coração alto da cidade branca e é daqui que te falo, melhor: que te escrevo.
Estou sentado num banco de pedra mármore gasta pelos dias do passado. Ainda me lembro de aqui me sentar e as minhas pernas não chegarem ao chão. Chegam à minha memória auditiva os sons traquinas e agudos das brincadeiras neste largo, dos jogos de futebol sem fim e com resultados invejáveis de incontável valor. Lembro-me da sombra gigante destes plátanos altos, dos imensos troncos que trepavamos sem razão lógica. Lembro-me das covas que faziamos nos canteiros para jogar ao berlinde. E acolá, mais ao fundo nas traseiras do muro alto e escondido pelos arbustos, era onde jogavamos ao verdade ou consequência ou ao bate-pé.
E aqui estou agora: sentado sob os plátanos altos e fortes que estendem a sombra até ao outro lado da rua. Talvez seja por causa destes que gosto tanto de plátanos. Bem vistas as coisas cresci aqui até fazer dezoito anos. Fazem parte de mim, não te parece?
Há rostos que identifico com facilidade, estão mais cansados e rugosos e os corpos mais pesados e lentos. Mas as imagens estão cá, tal qual como antigamente. Entristece-me a morte lenta destas ruas. A repetição das conversas e dos encontros como se fossem ecos que passam de um dia para o outro. Entristece-me pensar que a cada rosto que aqui se apaga morre lenta a cidade onde nasci.
Um destes dias trago-te aqui para que vejas com os teus olhos o que os meus guardam. Para que sintas com o teu coração o que o meu carrega. Para que guardes na memória o que na minha vive. Um destes dias abraçar-nos-emos sob as altas e longas copas destes plátanos e assistiremos sentados num destes bancos ao entardecer. Daqui não vemos o ocaso mas ouvimos os pássaros a recolherem-se nas árvores e nos beirais e escutaremos o inicio do silêncio quando chega a noite...

O que me Apetece:

Apetecem-me as palavras livres e soltas a correr nas linhas ajustadas de um post.
Apetecem-me as metáforas figuradas nos segredos privados que só nós entendemos.
Apetecem-me as imagens disfarçadas, para que não saibam de nós mais do que devem saber.
Apetece-me usar todas as letras do alfabeto, por ordem ou intercaladas, em palavras monosilábicas ou em palavras requintadas.
Apetecem-me palavras com significado e não outras que são fúteis e fáceis.
Apetecem-me ideias complexas e difíceis.
Apetecem-me desafios exigentes como o de te abraçar neste instante.
Apetecem-me os beijos que se soltam entre frases que não se concluem.
Apetecem-me fugas ao fim da tarde para te tocar com o desejo da paixão.
Apetece-me falar de Amor e de Vida contigo.
Apetecem-me as frases que se fecham numa mão enquanto caminhamos no deserto areal.
Apetecem-me os textos longos e sem pontuação como os de um romance sem fim.
Apetecem-me sempre as palavras quando me surges no pensamento.

29 de outubro de 2007

Um pensamento na tarde

O sol pairava no céu azul. Avancei sem medo pelo asfalto estreito que rasga os campos em direcção a sudeste e que se alinha recto entre vinhas e olivais. Avancei sem o receio de olhar para trás. Fi-lo pelo espelho retrovisor mais do que uma vez, e dessas vezes apercebi-me do sorriso no meu olhar. Olhei para o lado, para o banco à minha direita onde era suposto estares, e no teu lugar apenas um espaço vazio de ar entre mim e uma planície que corria ao meu lado em tons castanhos negros, da cor do barro. O sol pairava no céu azul. Sem núvens. Completamente azul celeste. Limpo e imaculado. E eu avancei... Avancei pelo asfalto desafiando a velocidade, descaí o braço para fora da janela para que o vento lhe desse vida.
Avancei até à aldeia plana de casas rasas e brancas com barras amarelas e azuis - engraçado: amarelas como o sol e azuis como o céu. Avancei pelas ruas empedradas e desacertadas, vazias de vida, sem gentes, sem olhares, sem corpos a aguentar o tempo nos bancos sob as laranjeiras. Esta aldeia somos nós, pensei reflectindo sobre a vida que levamos ocupada noutros lugares. E enquanto nos ocupamos com outras coisas deixamos os nossos interesses para trás, abandonados no vazio de uma tarde azul de outono.
Ao longe avisto a cidade branca com uma torre ao centro. Daqui parece-me a ilha que tantas vezes descrevo entre o mar de searas verdes. E daqui parece-me de bem consigo mesma, em repouso de tantos séculos de lutas e de conquistas, adormecida na passividade do presente. Leio um jornal amarelecido que trago no carro. As notícias são de outro tempo mas ainda se repetem na comodidade do vagar em resolver. Faz sentido. O vagar é para usar e abusar. O tempo comanda-nos com a sabedoria do esperar. Nascemos assim, somos assim, e seremos sempre assim. E a razão será talvez o que nos contorna o olhar, estas planícies longas que se prolongam no tempo vagaroso.
Nem um ruído interrompe o meu pensamento. Nem um ruído quebra a paz silenciosa da aldeia plana com casas rasas e brancas. Fumo um e outro cigarro só para escutar o som do isqueiro a acender. Pontapeio umas pedras pequenas junto à estrada, só para disfarçar a inquieta mudez. Desafio a loucura em pensamentos longinquos como tu. Em ideias bassas e desorganizadas que me conduzem num esvoaçar até ao reboliço da cidade grande de ruas largas e de luz intensa espelhada do rio. Lá, nessa cidade onde um dia fui o mais feliz de todos os homens, jazem as memórias já desfeitas em pó.
Aproveito a serenidade da sombra da laranjeira para esboçar um poema. Quero falar de ti, das horas que nos separam e se transformaram em dias, que nos trazem presas por um fio de seda. As palavras surgem num olhar que humedece, numa revolta que invade o estomago, numa arritmia que não controlo. Vêm de ti as palavras que desejo para te escrever um poema. Vêm de ti os sentimentos que me estremece a razão. Vêm de ti os passos que quero percorrer até te poder abraçar novamente.
Dou conta do inevitável: Amo-te. Mesmo aqui, no silêncio profundo de uma aldeia plana de casas rasas e brancas com barras amarelas e azuis - amarelas como o sol e azuis como o céu!

Um retrato teu num bolso apertado junto ao peito

Guardo um retrato teu num bolso apertado junto ao peito. A tua imagem passeia comigo para todo o lado para onde vá. Não sei se deva temer a perda ou se deva sugerir um amor eterno. Nem sempre os sentimentos vêm ao encontro da razão ou esta nem sempre abdica perante os sentimentos. Mas o que importará, se guardo um retrato teu num bolso apertado junto ao peito?...
Hoje sei da distância amarga, da lonjura que nos afasta os olhares e nos gela os corações. Hoje sei das dúvidas que te assaltam e que me roubam o sono, das horas fundas que escurecem o meu olhar. Hoje sei de ti porque descobri sobre mim o infinito desejo de te amar.
E para que amanhã não me esqueça, para que não me resigne, para que nos dias que ainda vêm, é suposto virem, o teu rosto me acompanhe no eterno lugar perfeito do amor, guardo um retrato teu num bolso apertado junto ao peito.

27 de outubro de 2007

Poema de antes de ti

descaí como o orvalho nas folhas verdes
esmoreci na penumbra da noite
na obscuridade de um poema
percorri as ruas largas da cidade
e vacilei nos lugares mais inoportunos
mas tudo isso foi antes do luar branco e cheio
que iluminou o teu corpo nu entre as searas

25 de outubro de 2007

Ainda te Amo

Ainda te tenho dentro de mim. E este ainda é para que saibas que não morres dentro de mim. Ainda te procuro como se tudo tivesse começado hoje, como se a frescura dos primeiros beijos residisse nos meus lábios - nos nossos lábios - para sempre. Ainda o meu olhar vive do teu. Ainda as minhas mãos se abrem livres na tua direcção. Ainda tudo...
E este ainda não é por hábito ou por rotina é tão só porque te Amo com a certeza de nós. Um dia perderei a timidez, ganharei forças para te escrever o mais puro elogio poético de sempre. E nesse dia se constatar que ainda te amo olharei para trás feliz pela tua existência em mim.
O tempo passa e eu ainda te Amo...

24 de outubro de 2007

Um abraço de calor

A manhã surgiu na continuidade de uma madrugada fria e chuvosa. Chove e o céu acinzenta-se sobre as nossas figuras encolhidas. Ainda não vi o sol. Sobre a planície o céu parece separado da terra por um véu que filtra a luz... faz-me falta a luz. Na cidade branca, que se fende na planície como se fosse uma ilha ao centro de um mar de searas, a ausência de luz solar pesa os corpos. Por aqui junta-se ao vazio das ruas e da vida a luz ténue e envergonhada de um dia chuvoso.
Nestes dias quero-te ainda mais. Em casa definho nas paredes brancas despidas de ti, no sofá vazio sem nós, nos corredores escuros sem a tua luz. Desejava tanto ter continuado no encanto das madrugadas que partilhamos e inundar as manhãs com o teu extasiante sorriso e o brilho intenso do teu olhar. O teu olhar de luz que ilumina os dias.
Mas a manhã permanece chuvosa e fria e o céu cinza pesa-me o coração em cada instante da tua ausência. Aguardo o teu abraço de calor. Abraças-me?

23 de outubro de 2007

Convite para jantar

Um convite para jantar surge naturalmente: basta o desejo de partilhar com a outra pessoa a sua companhia, de desfrutar de uma conversa agradável e amena, sem limite de tempo, sem a correria do relógio, sem os compromissos da tarde. Um almoço - desde que a companhia nos agrade - não é menos importante, mas também não tem o mesmo significado. Prefiro o jantar. Mas se não pode ser...
Queres jantar comigo? Perguntei, interessado na sua companhia ao jantar. Imaginei logo o seu olhar enebriante a fixar-se no meu à mesa do restaurante a média luz. Já tinha o vinho escolhido quando lhe fiz a pergunta, tão certo dos seus aromas como da afirmativa resposta. Não disse que não, resguardou-se numa pausa prolongada que confundi com silêncio. Interrompi o seu pensamento e repeti a pergunta receando que as palavras se tivessem perdido algures nas ondas celulares que ligam os telemóveis entre si. Respondeu-me que seria melhor responder depois... que ainda ia ver se seria possível. E eu, com o restaurante reservado, com o vinho escolhido e a vontade imensa de partilhar com ela as horas livres da madrugada cerrei a mão onde segurava uma rosa vermelha do deserto.
Mais tarde informou-me da sua indisponibilidade!... Talvez noutro dia. Disse em tom de promessa que temo não se cumprir. E aguardo. Que posso fazer se não aguardar. Esperar por quem se ama é a Rotina do Amor. E estou destinado à rotina da espera e dos desejos impedidos. Amanhã insisto. Talvez insista amanhã ou noutro dia... A ideia de jantarmos um com o outro extasia-me. Quero ter o seu olhar defronte para o meu. Quero invadir uma sala imensa com o brilho da paixão que nos une. Que ainda nos une.
Talvez noutro dia não seja possível reservar aquele restaurante, ou encomendar rosas vermelhas do deserto. Mas se for possível desfrutar de um jantar a dois... Prefiro a implorar um chá à tarde.

A luz de Lisboa nos teus olhos

a luz de lisboa nos teus olhos, o céu azul no teu corpo de vida,
as minhas mãos na distante planície onde permanece a minha alma perdida.
desejo recuperar o fôlego... quero a tua voz enebriante de volta ao meu acordar.
preciso do alento do teu sorriso para me poder aventurar.

a luz de lisboa nos teus olhos; num olhar que me lanças
e que receoso semeio em searas de esperança